domingo, 22 de março de 2026

439ª sessão: dia 24 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Mommy”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxima terça-feira, exibe-se Mommy (2014), de Xavier Dolan, uma das obras mais reconhecidas do realizador canadiano e um momento central do seu percurso cinematográfico. 
 
O filme acompanha Diane, uma mãe viúva que assume a guarda do filho adolescente, Steve, um jovem impulsivo e com comportamen-tos instáveis. A relação entre ambos, marcada por afecto e conflito, ganha um novo equilíbrio com a entrada de Kyla, uma vizinha que estabelece uma ligação próxima com a família. A partir deste núcleo, o filme desenvolve um retrato das dinâmicas familiares, da fragilidade emocional e das dificuldades de integração social.

Interpretado por Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon e Suzanne Clément, o filme assenta na intensida-de das interpretações e na proximidade entre câmara e personagens. Do ponto de vista formal, Mommy destaca-se pelo uso de um formato de imagem quadrado (1:1), que limita o campo visual e reforça a sensação de confinamento das personagens. Este dispositivo é pontualmente interrompido, criando momentos de expansão que acompanham o estado emocional das figuras em cena. A realização mantém ainda elementos recorrentes no cinema de Dolan, como o uso expressivo da música e a construção visual estilizada.

O filme estreou no Festival de Cannes de 2014, onde recebeu o Prémio do Júri, partilhado com Adieu au langage de Jean-Luc Godard. Ao longo do circuito internacional, Mommy foi amplamente distinguido, incluindo o Prémio César e Melhor Filme Estrangeiro, e representou o Canadá na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. A obra integrou ainda a programação de diversos festivais e consolidou o reconhecimento de Xavier Dolan a nível internacional.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!
 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Laurence para Sempre (2012) de Xavier Dolan



por Laura Mendes
 
Dando continuidade ao repto lançado em Amores Imaginários – ainda que tomando outros contornos –, Dolan adentra-se, novamente, nas tensões entre o real e o imaginado, a obrigação e o sonho. Num registo monumental – e bem mais sério –, o filme desenrola-se no tempo de uma conversa, estendido para o tempo em que se escuta e se vê acontecer a história de uma (meia) vida, em tom confessional, sempre emancipatório. 

Laurence e Fred vivem à margem, inconformados com as exigências do mundo, mas ainda assim alinhando-se com a heteronormatividade que os mantém em consonância com a “normalidade” esperada. É a revelação de Laurence como mulher trans que incita a uma verdadeira disrupção, espoletando o questionamento acerca do que é que realmente sustenta uma vivência (conjunta) numa sociedade opressiva. A imaginação já não consegue, com os seus artifícios, sobrepor-se ao real, tornando-o suportável. A imaginação sucumbe, já não nos surge como libertação, mas como doloroso confronto com o desabar da linearidade e simplicidade aparentes.

Laurence Para Sempre não é, como já o disse o próprio Dolan, um drama em torno da transexualidade, do duro processo de mudança de sexo, mas sim sobre duas pessoas presas uma à outra – atentando nas maldições dessa prisão –, que se pertencem mutuamente porque se sentem e percebem, sobre os desafios sociais que têm de ultrapassar, os obstáculos moralistas, os binómios demarcados. 

Apesar da (declarada) superficialidade em torno da jornada trans, é notável o respeito por estas pessoas e, sobretudo, pelo ser-se mulher. A mulher parceira, a mulher porvir, as mulheres de feminilidade excêntrica, desafiadora: Laurence, Fred, Mamy e Baby Rose. Nelas, sempre presente a necessidade de libertação face a um mundo opressivo e injusto - nervos, sentimentos e aflições à flor da pele, transpostos para sequências abaladoras, quadros marginais maravilhosos, envoltos em boémia, languidez, sobretudo refúgios para ser-se triste, decadente, face à insaciabilidade de um mundo demasiado limpo e exigente. Utilizando o contexto histórico a seu favor – o filme passa-se no intervalo entre 1989 e 2000 –, Dolan representa a ainda frágil consciência queer, funcionando esta abordagem como um comentário para o espectador contemporâneo – será que mudou muita coisa desde então?

É a partir de oscilações que o filme é construído, localizando a reflexão na relação metamórfica de Laurence e Fred. Opondo-se uma à outra, se Laurence sonha com uma nova vida em conjunto, Fred encontra-se no limbo entre fazer ou não parte, confrontando-se tanto com a opressão da família comum, como com o mundo desonesto e corrompido das aparências, perdendo-se na violência que brota das palavras de revolta que não são ditas. Gritos de raiva que são dirigidos tanto aos receosos que olham furtivamente – aqueles que vemos na sequência inicial –, como à lembrança, à saudade, ao arrependimento e frustração que envolvem uma relação que se vê falhada, mas eternamente querida. 

Esta não é uma jornada individual, mas relacional – falamos do amor estrutural, mas irrealizável, aquele que, repudiado pelas regras sociais, é como quimera encantada que resistirá na capacidade de sonhá-lo e recordá-lo.

O falso final feliz, recuperando uma ciclicidade importante para esta história de amor, é tão angustiante como libertador, sabendo nós que a felicidade que se fez no passado diverge daquela que se pode construir no futuro.

Dolan atravessa – e faz-nos atravessar – um mar de amarguras, fazendo-nos pensar acerca do poder da realidade, de como o vai exercendo sobre a maneira como nos conformamos (ou não) com quem somos, como nos construímos nas e das pessoas, acabando por nos ensinar que o destino não é uma entidade omnipotente, antes brutalmente contaminada pelos fatores sociais e políticos que acompanham os amores (im)possíveis.
 
 
 
 

domingo, 15 de março de 2026

438ª sessão: dia 17 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Laurence para Sempre”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, será exibido Laurence para Sempre (2012), terceira longa-metragem de Xavier Dolan. Após o reconhecimento obtido com Eu Matei a Minha Mãe (2009) e Amores Imaginários (2010), Dolan regressa com uma obra de maior escala narrativa, centrada numa história de amor.

O filme acompanha Laurence, professor de literatura que, no início da década de 1990, revela à companheira Fred o desejo de viver plenamente a sua identidade como mulher. A partir desse momento, a relação entre ambos é colocada à prova pelas dificuldades da transição, pelas reacções do meio social e pelas tensões que atravessam a vida quotidiana. Ao longo de quase uma década, o filme acompanha o percurso de Laurence e Fred, explorando os limites do relacionamento e da liberdade individual.

O elenco é liderado por Melvil Poupaud, no papel de Laurence, e Suzanne Clément, cuja interpretação de Fred foi destacada pela crítica. Participam ainda Nathalie Baye e Monia Chokri, colaboradora habitual do realizador. Rodado em Montreal, o filme evidencia o estilo visual característico de Dolan, marcado por sequências em câmara lenta e uma banda sonora que atravessa diferentes épocas, reforçando a dimensão emocional da história.

Laurence Anyways
estreou no Festival de Cannes de 2012, na secção Un Certain Regard, onde Suzanne Clément recebeu o prémio de Melhor Atriz e o filme foi distinguido com a Queer Palm. A obra viria ainda a receber o prémio de Melhor Filme Canadiano no Toronto International Film Festival, além de integrar a programação de diversos festivais internacionais, entre os quais o BFI London Film Festival e o AFI Fest, consolidando a projecção internacional do realizador.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Amores Imaginários (2010) de Xavier Dolan




por Laura Mendes
 
Amores Imaginários é uma ode às fantasias da juventude - aquelas onde nos entregamos aos amores não correspondidos, incapazes de os largar, mantendo-os sempre apetecíveis e fascinantes. Uma ode que desvela o que subjaz aos desamores e às ilusões que nos acometem e desvariam: os loucos ideais pelos quais somos tentados, o conceito do ser(-se) amado que ultrapassa a pessoa que pode ser amada - como o dizem no próprio filme -, colocando a falha como elemento imprescindível nas relações que mantemos com os outros, na maneira como crescemos. 

Um filme que explora a complexidade do fenómeno da atração, o seu funcionamento enquanto ponto de partida para uma série de desavenças que colocam frente a frente (res)sentimento, paixão e desilusão, trabalhando o amor romântico ora como uma quimera íntima, ora como um duelo de onde sairá um vencedor e um vencido, até mesmo como um acontecimento tanto impossível como inimaginável.

Repleto de metáforas e devaneios visuais - as escondidas na montanha, o saborear dos marshmallows - evidencia a beleza inerente aos jogos entre Marie, Francis e Nicolas: os dois primeiros, impotentes face aos encantos do último, um Adónis de carne e osso, recusam expressar desejos indizíveis sempre latentes, que ocupam o seu quotidiano, preferindo uma luta lenta e inquietante, mas cativante, necessária à conquista daquele coração.

As tensões entre hetero e homossexualidade, entre amores frustrados e bem-sucedidos, surgem-nos clarificadas e racionalizadas nas sequências intervalares e confessionais, enquanto se materializam de forma brutal e carnal nas dinâmicas do triângulo amoroso, criando um díptico que confronta não só reflexão e ação, mas também realidade e ilusão.

A narrativa, de simplicidade primitiva, ganha contornos mais interessantes com os pormenores que evocam o onírico e o utópico, a transcendência - pensemos nas sequências onde a câmara lenta nos guia em fabulosas danças de cores, ídolos do cinema, paixões irrevogáveis -, unindo-se, num abraço delicioso, à forma que adota através da via do olhar encantado, rendido. 

Queremos que a fantasia se perpetue. É, no entanto, com a destruição do lugar idílico onde o amor poderia florescer sem impedimentos que o filme penetra nas dificuldades do sonho. Rivalidade e desejo, fantasmas de amores passados e futuros compõem uma viagem de frustração que demonstra a força do amor e da sexualidade, mas também o seu lado mais negro e profundo, adensado pela revelação das dores dos corpos queer, dos ciclos de rejeição, da revolta contra uma solidão aparentemente inescapável.

Com a criatividade e a sensualidade de sempre, Dolan reinventa o derrotismo, transformando-o numa reivindicação de amizade, num propulsor de excitação, de novos começos, de vida a acontecer.




domingo, 8 de março de 2026

437ª sessão: dia 10 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Amores Imaginários”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma intensidade e profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, exibe-se Amores Imaginários (2010), segunda longa-metragem de Xavier Dolan que confirma o talento precoce do cineasta que se revelara no ano anterior com Eu Matei a Minha Mãe (2009), exibido na semana passada. Neste segundo filme, o realizador retrata as inseguranças da juventude, o amor não correspondido e a obsessão amorosa.

A história acompanha Francis e Marie, dois amigos inseparáveis que vivem em Montreal, cuja relação se altera quando conhecem Nicolas, um jovem que rapidamente desperta o fascínio de ambos. Convencidos de que são o verdadeiro objecto de desejo dele, instala-se uma rivalidade entre Francis e Marie. Através deste triângulo amoroso, Dolan explora as projecções românticas e a forma como o amor, ou a ideia que fazemos do amor ou o idealizamos, pode distorcer a percepção da realidade.

Tal como no seu filme de estreia, o realizador assume múltiplas funções: escreve o argumento, realiza e interpreta uma das personagens principais, Francis. A seu lado surge Monia Chokri, que dá vida a Marie, e Niels Schneider, no papel de Nicolas, cuja ambiguidade alimenta a tensão emocional do trio. O elenco é ainda pontuado por pequenas participações e testemunhos que surgem como comentários irónicos sobre experiências amorosas, reforçando o tom simultaneamente romântico e mordaz do filme.

Rodado em Montreal (Canadá), Amores Imaginários apresenta uma estética marcada pela câmara lenta, pelo guarda-roupa meticulosamente escolhido e por uma banda sonora ecléctica que cruza pop com referências retro — traços que se tornariam característicos do cinema de Xavier Dolan. O filme estreou no Festival de Cannes de 2010, na secção Un Certain Regard.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 5 de março de 2026

Eu Matei a Minha Mãe (2009) de Xavier Dolan



por António Cruz Mendes
 
Comecemos pelo fim. Na última sequência de imagens de Eu matei a minha mãe, vemos Hubert Minel em criança, a brincar, feliz, ao lado da sua mãe. Acham-se naquilo a que ele mais tarde chamará “o seu reino”, o paraíso perdido dos seus amores infantis, o lugar onde, mais tarde, se refugiará quando fugiu do colégio onde os pais o matricularam como aluno interno.

Antes disso, depois de violentamente agredido pelos seus colegas, vítima de uma provável manifestação homofóbica, refugia-se no seu quarto, mergulhado na penumbra. Vemo-lo despido, de costas, sentado à sua secretária. Apenas a luz ténue de um pequeno candeeiro de mesa ilumina a cena. Escreve. No que está a pensar? Numa onírica sequência de imagens, Hubert, já um jovem adulto, persegue a mãe, ainda jovem e vestida de noiva. Essas imagens, muito belas, tingidas pela cor outonal da floresta onde a cena decorre, têm uma conotação sexual bastante explícita. E é o horror que isso desperta nele que explica a relação tensa, violenta, que, na sua adolescência, ele vai desenvolver com ela.

Evidentemente, a atitude de menosprezo, muitas vezes raiando o ódio, que ele faz questão de evidenciar a propósito dos seus gostos e dos seus costumes, reflecte a diferença cultural que os separa, bem como a necessidade, própria da adolescência, de afirmação da sua própria identidade, da sua diferença. Mas, no caso de Hubert, ela funciona, antes de tudo, como o escudo com que ele se defende de um amor proibido.

Hubert está presente em quase todas as cenas. Naquelas que nos contam a sua história, nos seus monólogos interiores, filmados a preto e branco, ou nos flashback que nos remetem para a sua infância, apresentados sob a forma de filmagens, supostamente realizadas pelo seu pai, num registo muito espontâneo e despretensioso. 

Todo o filme se resume ao seu drama interior. As outras personagens, inclusive a da sua mãe, para quem as fúrias de Hubert parecem ser apenas um incómodo mais ou menos difícil de suportar, se apagam diante dele. Têm uma espessura psicológica e uma relevância muito pequena. Pouco ficamos a saber do seu namorado, Antonin, ou da sua professora, Julie Coutier, com quem Hubert mantém uma relação que, também ela, está proscrita pelas convenções sociais. Menos ainda ficamos a saber algo acerca do seu pai. O filme resume-se a Hubert e à forma como se debate com a relação de amor-ódio que mantém com a sua mãe.

Eu matei a minha mãe é primeira longa-metragem de Xavier Dolan. Ele próprio encarna a personagem de Hubert e o seu filme, não sendo uma obra autobiográfica, reflecte experiências de vida do realizador. Não é por acaso que, tanto ele como a sua personagem, são homossexuais. Tal como no caso de Hubert, os pais de Xavier Dolan divorciaram-se quando ele era ainda criança e também ele manteve, depois disso, uma relação problemática com a sua mãe. E, tal como, no filme, podemos interpretar as tentativas literárias e artísticas de Hubert como uma tentativa de sublimação dos seus recalcamentos, o mesmo se poderá dizer acerca de Dolan, que ultrapassou um historial de rebeldia e de violência, que o levou a ser expulso de várias escolas, dedicando-se ao cinema.

O roteiro de Eu matei a minha mãe foi escrito quando ele tinha dezasseis anos e o filme, multipremiado premiado no festival de Cannes, realizou-o quando tinha vinte. Foi o primeiro passo da sua carreira como realizador. Uma obra ainda muito pouco conhecida em Portugal que, agora o Lucky Star – Cineclube de Braga se propõe divulgar com a realização deste ciclo de filmes de Xavier Dolan.
 


A presença recorrente da imagem de Hubert em grande plano sublinha o facto do filme se centrar quase exclusivamente numa reflexão sobre o seu drama interior.
 
 
 
 

domingo, 1 de março de 2026

436ª sessão: dia 3 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Eu Matei a Minha Mãe” de Xavier Dolan, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o cineclube abre o ciclo com “Eu Matei a Minha Mãe” (J’ai tué ma mère, 2009), primeira longa-metragem de Xavier Dolan, realizada quando o cineasta canadiano tinha apenas 20 anos.
 
O filme acompanha Hubert, um adolescente de 17 anos que vive uma relação marcada por conflito permanente com a mãe. Entre confrontos e tentativas falhadas de aproximação, a narrativa centra-se na dificuldade de comunicação entre ambos, abordando temas como autonomia, identidade e afirmação pessoal. Em paralelo, Hubert procura afirmar a sua individualidade, incluindo a vivência da sua orientação sexual.

Interpretado pelo próprio Xavier Dolan. o filme foi desenvolvido a partir de um argumento parcialmente inspirado nas experiências pessoais do realizador. O elenco inclui ainda Suzanne Clément, no papel da professora e Patricia Tulasne, que interpreta a diretora da escola. A presença de Anne Dorval (mãe de Hubert), na sua primeira colaboração com Dolan, marcou o início de uma parceria artística que se prolongaria em vários filmes posteriores do realizador.

Produzido com um orçamento reduzido e financiado em parte com fundos públicos do Quebeque, o projecto começou a ser escrito quando Dolan ainda era adolescente. A rodagem decorreu em Montreal, privilegiando espaços interiores e centrada no trabalho de actor.

O filme estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 2009, onde recebeu três dis-tinções, incluindo o Art Cinema Award. Ao longo do circuito internacional, foi exibido em vários festivais e conquistou mais de vinte prémios, afirmando Xavier Dolan como uma das revelações do cinema contemporâneo.

Primeiro capítulo de uma filmografia que rapidamente ganharia projeção internacional, Eu Matei a Minha Mãe permanece uma obra central no percurso do realizador, pelo modo como expõe a complexidade das relações familiares e o processo de construção da identidade na adolescência.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Deuses de Pedra (2025) de Iván Castiñeiras Gallego



por Jessica Ferreiro
 
O cineclube encerra o ciclo de cinema galego, em parceria com o Festival Convergências, com mais um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Deuses de Pedra (2025), de Iván Castiñeiras Gallego, que se construiu ao longo de 15 anos de filmagens entre a Galiza e Portugal. O filme observa o quotidiano e as transformações de uma comunidade rural da “raia seca”, uma das fronteiras mais antigas da Europa, e cujo tracejado é, também, uma linha imaginária que incorpora memórias antigas e planos futuros.

Rodado em Trás-os-Montes, com foco na aldeia de Moimenta da Raia (Vinhais) e na zona de Manzalvos, na Galiza, estende-se ainda a outras localidades fronteiriças como Ousilhão, Vila Boa de Ousilhão, Carvalhas, Casares e Mofreita. O documentário regista práticas e rituais locais, incluindo os a matança do porco ou, ainda, os caretos de Ousilhão.

A preto e branco, as práticas ancestrais, a cultura material, tal como as ferramentas de trabalho e outros utensílios do dia-à-dia, são exibidas como relíquias. As práticas e partilhas, tal como a da merenda tradicional nas montanhas, que tanto podem ser portuguesas como galegas, romanas, celtas e mouras, o relato das histórias comuns em torno do contrabando que transpõem a fronteira vigiada e de “arame farpado”, mas também as mãos que descascam o fruto plantado e colhido da terra ou, ainda, os movimentos que moldam o pão, representam cada gesto que desenham uma paisagem geográfica marcada pela sua história e cultura. Homens e mulheres, um dia ancestrais, atravessam estes lugares, deixando os seus passos como vestígios ou rochas antigas, tornando-se Deuses de Pedra, indeléveis.

As filmagens a preto e branco dão lugar às imagens a cores que nos remetem para o tempo presente e para as mudanças inevitáveis que transformaram a aldeia ao longo de 15 anos: a desertificação, resultado da emigração, o encerramento da escola, bem como as prática e gostos partilhados pelos mais jovens, reflectidos na música ou na dança. Contudo, não existe perda, alguns pretendem voltar, outros escrevem cartas aos seus entes queridos que estão emigrados e muitos regressam para as festas de verão, sem nunca sentirem que perderam as suas raízes. Mariana, que se vê crescer ao longo do filme, dos 3/4 aos 18 anos, decide, no final, deixar a aldeia e emigrar, provavelmente juntar-se ao seu irmão em Valência (Espanha). Apesar da tristeza sentida em deixar a sua terra e a sua mãe, sabemo-la ciente de que a vida é “uma aventura” e que é feita de idas e voltas. Os “Deuses de Pedra” retornam sempre ou talvez nunca se ausentem do seu templo, como as grandes e antigas pedras que compõem a paisagem e testemunhas as histórias dos homens que acolhem.

Assim, através do registo documental e de um olhar etnográfico, Deuses de Pedra convida o espectador a reflectir sobre a maneira como a história e a geografia moldam a vida das pessoas, explorando a fronteira não como barreira, mas como espaço vivo de memórias, escolhas e continuidades.

Coproduzido entre Espanha, França e Portugal, o filme foi rodado em formato 16 mm e envolveu colaborações de equipas técnicas portuguesas, espanholas e francesas, incluindo o design de som e música de Miguel Moraes Cabral e a edição de Antonio Trullén Funcia. A obra estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) 2025, na secção Bright Future, e passou por diversos festivais internacionais, como o Thessaloniki International Documentary Festival e o Porto/Post/Doc 2025. No festival Play-Doc (Tui), recebeu uma distinção na competição galega por retratar a transformação de um território e as suas gentes. 
 
 
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

435ª sessão: dia 24 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“Deuses de pedra” de Ivan Castiñeiras Gallego, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Até ao final de fevereiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxma terça-feira, o cineclube encerra o ciclo com mais um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Deuses de Pedra” (2025), de Iván Castiñeiras Gallego, que se construiu ao longo de 15 anos de filmagens entre a Galiza e Portugal.
 
O filme observa o quotidiano e as transformações de uma comunidade rural da “raia seca”, uma das fronteiras mais antigas da Europa, articulando memória, tradição e identidade. A narrativa acompanha Mariana, ao longo de 15 anos filmagem, que aos 17 anos decide deixar a aldeia e emigrar.

Rodado em Trás-os-Montes, com foco na aldeia de Moimenta da Raia (Vinhais) e na zona de Manzalvos, na Galiza, estende-se ainda a outras localidades fronteiriças como Ousilhão, Vila Boa de Ousilhão, Carvalhas, Casares e Mofreita. O documentário regista práticas e rituais locais, incluindo os Caretos de Ousilhão, a matança do porco, o ciclo do pão e a chega de bois. Coproduzido entre Espanha, França e Portugal, o filme foi rodado em formato 16 mm e envolve colaborações de equipas técnicas portuguesas, espanholas e francesas, incluindo o design de som e música de Miguel Moraes Cabral e a edição de Antonio Trullén Funcia. 

A obra estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) 2025, na secção Bright Future, e passou por diversos festivais internacionais, como o Thessaloniki International Documentary Festival e o Porto/Post/Doc 2025. No festival Play-Doc (Tui), recebeu uma distinção na com-petição galega por retratar a transformação de um território e as suas gentes.

Com uma proposta formal que cruza observação directa e olhar etnográfico, Deuses de Pedra convida o espectador a refletir sobre a maneira como a história e a geografia moldam a vida das pessoas, explorando a fronteira não como barreira, mas como espaço vivo de memórias, escolhas e continuidades.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Apenas na Terra (2025) de Robin Petré



por Laura Mendes
 
Apenas na Terra parte de uma constatação que acaba por estruturar a forma como se propõe a explorar as intricadas relações entre o humano e a restante natureza que o circunda: num local devastado pelos incêndios, os animais que, rodeados pelo fogo, avistam um ser humano, preferem regressar à dureza das chamas a confiar nesta (que é a nossa) outra forma de vida. 

Estes animais são também aqueles que ocupam os espaços domésticos que vemos ser apresentados, sendo parte da paisagem quotidiana onde, de igual forma, o humano deambula entre os seus afazeres: seja a atenção em cuidar e preservar como a construção de uma artificialidade cuja enormidade depressa potencia a pequenez e a dissolução da vida mais frágil e indefesa. 

O retrato é cru e afigura-se-nos como um paradoxal díptico, contrapondo a simultânea proximidade e distância a que nos encontramos em relação à natureza: são, principalmente, as crianças quem melhor expressa o fascínio e o temor, o domínio e a espontaneidade constituintes do modo como comungamos com o ecossistema. 

As paisagens progressivamente mais apocalípticas suspendem, por momentos, a realidade, já que a transformam em composições poéticas, refletindo em torno da grandiosidade de uma natureza em decomposição, unindo sublime e grotesco. 

Ações rotineiras transformadas em atos simbólicos: o nascer de uma ovelha ou um cigarro que se fuma aquando de um turno de vigia vão compondo os sucessivos quadros que, lenta e pacientemente, deslocam o real rural da Galiza para um imaginário que tem tanto de mágico como de distópico. 

O filme opera numa dinâmica circular e de progressão. Uma possível primeira parte apenas evoca – quase misticamente – os incêndios que colapsam o horizonte, através da secura das tonalidades opacas e tristes, bem como das narrativas localizadas no seio de uma coletividade ainda (materialmente) afastada da destruição porvir. Uma outra, segunda, torna as chamas palpáveis, os incêndios conscientes e íntimos: é já a inquietação e o caos que ocupam o ecrã, enquadrados numa luta pela terra que é de todos – as chamas são parte do corpo e as faúlhas entranham-se nos olhos, envoltas num misto de impotência e necessidade de proteção. O seu final completa o círculo, regressando à (aparente) calma inicial mas destabilizando-a – pensemos no olhar da pequena ovelha – ao propor novas perspetivas em torno do desastre e da tragédia, da solenidade da regeneração e da importância do território. 

A banda sonora, priorizando os sons naturais provenientes da ambiência e, principalmente, os silêncios, adensa a atmosfera transcendente muito própria de Apenas na Terra, num tom perscrutador. 

Uma chamada de atenção para aquilo que, só podendo acontecer na terra, somente nela encontrará uma reconciliação, que terá de partir de nós. 




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

434ª sessão: dia 17 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“Apenas na Terra” de Robin Petré, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga 
 
Até ao final de fevereiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Esta terça-feira, o cineclube exibe um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Apenas na Terra (Only on Earth, 2025), de Robin Petré, filmado na Galiza e centrado na realidade recorrente dos incêndios florestais. María Goya Barquet, responsável pela cinematografia, traz ao olhar do espectador o contraste entre a beleza das montanhas galegas e a força destrutiva do fogo.

O filme decorre numa zona rural conhecida pela presença de cavalos selvagens que vivem em regime semi-livre nas montanhas galegas, território que, nos últimos anos, tem sido sucessivamente atingido por fogos de grande dimensão. A câmara de filmar acompanha o impacto dos incêndios na paisagem e nas comunidades locais, registando tanto a dimensão ecológica como as consequências sociais destes eventos.

Sem recurso a narração explicativa, a realizadora constrói o documentário através da observação direc-ta, evitando, contudo, o formato de reportagem, preferindo dar voz e o “olhar” tanto aos humanos (ve-terinária Eva, bombeiro San, o jovem Pedro) como aos próprios animais. As suas vozes estruturam o filme e oferecem diferentes perspectivas sobre prevenção, risco e permanência no território.

Apenas na Terra estreou mundialmente no Berlinale 2025, e foi exibido em diversos festivais inter-nacionais, entre os quais o Sydney Film Festival, o Thessaloniki International Documentary Festival, o DocsBarcelona, o Verzió International Human Rights Documentary Film Festival e o Porto/Post/Doc 2025. A circulação em diferentes contextos reforça o enquadramento do filme no debate contemporâ-neo sobre as alterações climáticas.

Com esta sessão, o cineclube propõe um olhar atento sobre uma realidade geograficamente próxima, que também é experienciada em Portugal, colocando em debate a relação entre território, comunidade e responsabilidade colectiva perante os desafios ambientais actuais.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Corno do Centeio (2023) de Jaione Camborda



Por António Cruz Mendes
 
 
O Corno do Centeio é um filme feito por mulheres sobre mulheres. Pela realizadora, pela Jaione Camborda, e também pela actriz, Janet Novás, com uma interpretação soberba da personagem principal do filme. As personagens masculinas têm um papel bastante irrelevante na sua narrativa. É de mulheres, do seu corpo, da sua condição, dos laços de solidariedade que entre elas se entretecem, aquilo de que o filme trata.
 
A acção decorre em 1971 e o seu contexto é o de uma comunidade piscatória na ilha de Arousa, na Galiza. A sequência inicial dá-nos as imagens e os sons de um parto. Grandes planos da mulher que vai dar à luz, do seu rosto contorcido pela dor, do seu corpo suado e dos gestos de conforto da parteira que a assiste. A sequência final é também a do nascimento de uma criança. Nas últimas imagens do filme, vemos Maria encostando ao seu rosto, emocionada, a cabeça do seu filho recém-nascido. Desta forma, e num sentido metafórico, o filme apresenta-se como uma celebração da vida e do papel da mulher na sua criação.
 
As sequências que vemos depois do parto inicial mostram-nos momentos de festa. Há música, danças, alegria. E é ainda do desejo e da vida que nos falam as imagens da mão de Maria, os seus dedos agarrando a terra, no clímax de uma relação sexual.
 
Mas, neste filme de luzes e sombras, no cerne da narrativa, está a morte de uma adolescente, presumivelmente ocorrida na sequência de um aborto. Entre o momento do aborto e o da sua morte, há um lapso temporal que o filme não documenta, mas todos sabemos que, antes da legalização da IVG, eram muito frequentes os casos de morte devidos a abortos praticados sem condições sanitárias. Luísa apela à parteira que a ajude a abortar, de outra forma fá-lo-á sozinha. Numa sequência belíssima (nunca será de mais encarecer a qualidade da luz e da fotografia de Rui Poças), vemos Maria, uma pequena mancha vermelha, perdida no vasto mar amarelo de um campo de centeio. Mais tarde, oferecerá a Luísa a beberagem que lhe provocará o aborto. Sabe-se que do corno ou esporão-do-centeio, um fungo que parasita cereais, se pode extrair uma substância que provoca contracções musculares e afecta o útero. Sabe-se também que o seu uso pode ser muito perigoso para a saúde. Assim, o corno do centeio, que dá o título ao filme de Jaione Camborda tem também, neste contexto, uma dimensão simbólica: nele se concretiza o tempo em que uma legislação conservadora, suportada por convicções de ordem religiosa que nem todos partilham, obrigava muitas mulheres a escolherem entre uma gravidez indesejada e o risco de morte.
 
Perseguida pela Justiça franquista, Maria atravessará uma fronteira percorrendo as passagens que são cenários do contrabando de mercearias com que se combate a pobreza. Também ela transporta consigo uma nova vida, que crescerá em lugares diferentes daqueles onde se encontravam as suas raízes.
 
O Corno do Centeio recebeu a Concha de Ouro atribuída ao melhor filme do Festival do prestigiado festival de San Sebastián. Depois das suas 71 edições, Jaione Camborda foi a primeira realizadora espanhola a receber esse prémio.
 
 
 

No grande plano do olhar inocente e suplicante de Luísa
  
 
 
 
 
 
e no plano de geral do campo de centeio onde Maria procura o corno, condensa-se o drama das mulheres que arriscam a vida para interromper uma gravidez indesejada. 
 
 
 
 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

433ª sessão: dia 10 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Corno do Centeio”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
Em fevereiro, findado o ciclo de cinema dedicado ao “Expressionismo Alemão”, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta, a partir do dia 10 de fevereiro, uma programação de cinema dedicada à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

O ciclo arranca na terça-feira, 10 de fevereiro, com “O Corno do Centeio” (2023), a mais recente longa-metragem de Jaione Camborda, uma coprodução entre Espanha, Portugal e Bélgica que tem sido aclamada internacionalmente. 
 
Ambientado em 1971, na ilha de Arousa, na Galiza, o filme segue María, uma mulher galega que vive da apanha de marisco e é reconhecida na sua comunidade pelo trabalho de parteira que desempenha com dedicação. Um acontecimento imprevisto obriga-a a abandonar o lugar onde sempre viveu e a atravessar a fronteira por uma rota de contrabando em direção a Portugal, desencadeando uma jornada difícil de luta pela sobrevivência e liberdade.

Protagonizado por Janet Novás, em estreia no cinema, e contando com Siobhan Fernandes, Carla Rivas e Daniela Hernán Marchán no elenco principal, “O Corno do Centeio” constrói-se como um drama humano que explora temas como a sororidade, a emancipação feminina e os laços entre mulheres frente a desafios sociais e pessoais.

A realizadora basca Jaione Camborda estudou cinema nas prestigiadas escolas de Praga e Munique e vive e trabalha na Galiza. O filme “O Corno do Centeio” é a sua segunda longa-metragem, teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) em 2023 e foi vencedor da Concha de Ouro no 71.º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, sendo, assim, um marco importante para o cinema contemporâneo hispânico e para a própria realizadora.
 
Esta obra confirma o percurso de Jaione Camborda, que já se havia destacado com o filme “Arima” (2019), e inscreve-se num cinema europeu contemporâneo atento às experiências femininas e às geografias periféricas.

O Corno do Centeio” é um filme que articula uma narrativa de deslocação, centrada em relações de solidariedade e em formas de resistência transfronteiriça.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O Anjo Azul (1930) de Josef von Sternberg



por Laura Mendes
 
Neste último filme do ciclo Expressionismo Alemão, recuperam-se os cenários angulares e os jogos de sombras de O Gabinete do Dr. Caligari, juntando-os ao retrato quase realista de vidas banais, já explorado em O Último dos Homens

O ídolo é identificado, de imediato, nas cenas iniciais: Lola exuberante no cartaz matinal, inspirando até a senhora que o limpa; Lola fascinante em pequenos postais que circulam, de mão em mão, entre colegas de escola, na sala de aula.

O ambiente desta última é rígido, habitado por masculinidades que simultaneamente oprimem e são oprimidas, refletidas nos alunos e no ilustre professor Immanuel, cético e crítico das imagens de Lola que vê habitar, não só nas brincadeiras, mas nas mentes daqueles que tenta educar.  É aqui que O Anjo Azul surge especialmente interessante, sobretudo pela exploração dos desejos escondidos e pela consequente destruição de hierarquias que nos dividem, demonstrando a transversalidade das fragilidades de cada um.

Immanuel vai cedendo progressivamente ao imaginário burlesco protagonizado pela encantadora Lola – audaz e imperdoável, remetendo para figuras femininas suas sucessoras, nomeadamente Sally Bowles em Cabaret, de Bob Fosse –, ciente de que o mesmo é sintomático de uma palpável decadência social. Ainda assim, acaba incontrolavelmente atraído pelo caráter espontâneo e inebriante de Lola, provando as incongruências da atração e o desespero de um homem que não havia, até então, encontrado um rumo suficientemente satisfatório. 

O repentino abandono dos velhos costumes para abrir portas à frivolidade do cabaré é uma premissa inteligentemente proposta, podendo ser pensada como desconstrução de estruturas disciplinares inflexíveis: estas, relacionadas com as patriarcais, estão evidentes na necessidade sentida por Immanuel de exercer um poder controlador e violento no seio da sua vida íntima, acabando vítima do seu próprio comportamento. As repercussões deste último na vida individual e coletiva pintam o quadro de uma sociedade do espetáculo, fascinada pelo torpor que faz esquecer, aliviando efemeramente a carga de uma vida miserável. 

Ainda que a representação estereotipada da mulher sugira o seu papel enquanto pecado material que conduz o homem à desgraça, o filme não parece louvar nenhuma das posições, inicialmente antagónicas, do par protagonista – tanto Immanuel como Lola se deixam encantar pelas aparências de uma vida repleta de dinheiro e sensualidade, que acaba por se revela uma quimera inatingível, transformada em frieza e solidão. 

O fim de Immanuel é fruto de uma sociedade que implode para ver outrem desabar; do ímpeto, em última instância narcisístico, de consumo e entretenimento desenfreados, onde aquilo que, nos outros, aparente e honradamente desprezamos, é, na verdade, o que em nós mais tentamos camuflar e conter. 
Uma chamada de atenção que reverbera na atualidade: e não deixemos que surja como presságio, à imagem do velho palhaço triste que espreita durante todo o filme, esperando o seu futuro companheiro de palco. 




domingo, 1 de fevereiro de 2026

432ª sessão: dia 3 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Anjo Azul” de Josef von Sternberg, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Em janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começou o ano com uma programação dedicada ao “Expressionismo Alemão” e que termina a 3 de fevereiro. A partir do dia 10 de fevereiro, o cineclube apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima ter\a-feira, 3 de fevereiro, o ciclo “Expressionismo Alemão” encerra com o filme “O Anjo Azul” (Der blaue Engel, 1930), de Josef von Sternberg, um dos filmes fundamentais da transição do cinema mudo para o sonoro e uma obra incontornável da história do cinema europeu.
 
Adaptado do romance Professor Unrat de Heinrich Mann, o filme acompanha a queda moral e social de um respeitado professor que se apaixona por Lola Lola, cantora de cabaré, figura livre e provocadora, interpretada por Marlene Dietrich. A relação entre ambos expõe o conflito entre a vontade individual e a imagem pública, num retrato incisivo da hipocrisia moral e da fragilidade das convenções sociais.

O Anjo Azul” assinala a consagração internacional de Marlene Dietrich, cuja presença magnética redefine a representação da feminidade no cinema. Ao mesmo tempo, o filme marca uma das interpretações mais memoráveis de Emil Jannings, actor consagrado do cinema mudo, aqui confrontado com a nova expressividade exigida pelo som.

Realizado por Josef von Sternberg, cineasta conhecido pelo uso expressivo da luz e da composição, o filme destaca-se pela forma como articula espaço, corpo e som. O contraste entre o liceu onde o professor Rath lecciona e as cenas no cabaré estrutura visualmente o filme, acompanhando a progressiva desintegração da autoridade do protagonista.

Produzido na Alemanha nos últimos anos da República de Weimar, “O Anjo Azul” antecipa o clima de volubilidade social e moral que marcaria a década seguinte. Entre melodrama, crítica social e tragédia humana, o filme permanece um retrato actual das relações entre poder, desejo e exposição pública.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

M - Matou! (1931) de Fritz Lang



Por António Cruz Mendes

Matou! foi o primeiro filme falado realizado por Fritz Lang e é, na opinião de muitos, a sua obra máxima. Tal como O Último dos Homens (ou A Última Gargalhada, na edição brasileira) parte de um episódio realista. Neste caso, uma série de casos de desaparecimento de crianças, noticiado nos jornais.

O medo espalha-se entre a população. As mães fecham as filhas em casa. Os homens entreolham-se: qualquer um pode ser o serial killer. E a polícia desdobra-se, sem êxito, em investigações e rusgas. Os mendigos, as prostitutas, os vigaristas e os ladrões acabam por sofrer as consequências da actividade policial e, por isso, o lumpenproletariat mobiliza-se também para a caça ao assassino. Recorrendo à montagem paralela, Lang mostra-nos como esses dois elementos habitualmente antagónicos vão convergir num propósito comum: a caça ao assassino.  

Entretanto, os espectadores já o conhecem. É um homem torturado, solitário, que age obedecendo a uma voz interior, que apenas se cala no momento em que consuma os seus crimes. Assobia o tema do Peer Gynt quando procura as suas vítimas e é isso que o denuncia a um cego a quem compra um balão para oferecer a Elsie.

Nunca assistimos a uma cena de assassinato. São sinais de ausência que nos informam dos crimes: a caixa de escadas do prédio onde mora Elsie, que será assassinada, vista numa perspectiva abissal pela mãe que a chama para almoçar; o seu lugar vazio à mesa, dominada pela imagem do prato, de um branco resplandecente; o balão abandonado, preso nos fios eléctricos…

Mas seguimos os passos do assassino. Vemo-lo investigando o seu rosto num espelho; examinando uma montra onde poderá comprar os presentes com que pode seduzir uma vítima; descobrindo, aterrado, num ombro a marca M, que o assinala aos olhos dos seus perseguidores; travando uma desesperada luta pela sua vida, no obscuro armazém, onde é julgado por júri implacável formado por representantes do submundo do crime.

A interpretação de Peter Lorre é excepcional, mas será necessário regressar ao cinema mudo para encontrarmos os mais característicos exemplos de interpretações expressionistas: uma representação não naturalista, mas sustentada por gestos e expressões patéticas e exageradas, e em movimentos súbitos e irregulares. Lotte Eisner compara a deformação expressionista dos gestos à dos objectos e cita Rudolf Kurtz que afirma ser “preciso (…) que as fórmulas estabelecidas pelo artista expressionista para a composição do espaço sejam igualmente válidas para as evoluções do corpo humano: deve exprimir-se o passional de uma situação com uma mobilidade intensa e inventar movimentos que ultrapassem a realidade”.

Em O Último dos Homens, vimos como o cinema mudo evoluiu permitindo contar uma história recorrendo apenas a imagens, dispensando os intertítulos ainda presentes em O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu. Por outro lado, o sonoro introduz uma nova gama de possibilidades expressivas que Fritz Lang explora magistralmente. Por exemplo, nos gritos da mãe que ecoam, chamando por Elsie sem obter qualquer resposta. Afinal, é um cego quem identifica o assassino apenas por que reconhece a música que ele trauteia antes de cometer os seus crimes. 

Como vimos, o argumento inspira-se em acontecimentos noticiados pelos jornais. Mas, como nos diz Sigfried Kracauer (De Hitler a Caligari. Uma interpretação psicológica do cinema alemão), Fritz Lang amplifica-o, dando-lhe uma ressonância maior. O filme esteve para se chamar Os Assassinos Estão entre Nós e este título só foi abandonado porque se temeram represálias dos nazis que, em 1931, se preparavam já para tomar o poder. O produtor foi confrontado com a proibição de utilizar os estúdios Staaken para as filmagens e Lang foi pessoalmente ameaçado por um activista nazi. Nessa altura, diz-nos ele, “alcancei a minha maturidade política”. 

Matou!, questionando-nos sobre as razões da personagem interpretada por Peter Lorre, regressa, afinal, a um tema que já conhecemos de O Gabinete do Dr. Caligari ou de Nosferatu e, de facto, de muitos outros filmes expressionistas alemães: o da pulsão irracional, o desejo de matar que faz dos homens lobos dos homens. Por que é que esse tema é recorrente no cinema alemão da época da República de Weimar? Um eco da matança ocorrida nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial ou uma visão premonitória daquela que virá com a vitória do nazismo?


 
Na substituição da imagem do homem pela da sua sombra, revela-se o lado negro da sua alma. 
 
 

 Lotte Heisner (A Tela demoníaca. As influências de Max Reinhardt e do expressionismo) chama-nos a atenção para a obsessão do cinema expressionista por escadas e ruas esconsas, estreitas e tortuosas… Em Matou!, a mãe de Elsie chama-a de uma escada que parece conduzir a um abismo.
 
 
 
O assassino de M examina-se ao espelho: Quem és tu? O tema do duplo é recorrente no cinema expressionista. Beckert, gordo e algo efeminado, parece-nos incapaz de cometer qualquer crime. Uma vizinha descreve-o à polícia como uma pessoa tranquila e correcta. Mas, tal como a Cesare, o sonâmbulo de O Gabinete do Dr. Caligari, uma força irresistível compele-o ao assassínio.
 
 

 É no reflexo de um vidro que o protagonista de M descobre a marca que o denuncia como o “vampiro de Dusseldorf”.
 
 

 Esmagado pelo plano picado, o assassino luta pela sua vida, apresentando-se como uma vítima de uma vontade que o transcende e subjuga.
 
 

Mas ladrões, assassinos e vigaristas formam um júri implacável. A lâmpada que ilumina a cena está suspensa numa estrutura em forma de forca.
 
 
 
 Só a intervenção, à última hora da polícia, impedirá o julgamento popular. 
 
 
 

domingo, 25 de janeiro de 2026

431ª sessão: dia 27 de Janeiro (Terça-Feira), às 21h30



“M Matou” de Fritz Lang, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Durante o mês de janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começa o ano de 2026 com um programa dedicado ao cinema mudo. Neste mês, o ciclo Expressionismo Alemão apresenta clássicos do cinema alemão dos anos 20 e 30 do século passado. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira será exibido o filme M – Matou (M, 1931), de Fritz Lang, uma das obras fundamentais do cinema sonoro e um retrato perturbador da violência e do medo colectivo.
 
O filme acompanha a perseguição a um assassino de crianças na cidade de Berlim, fenómeno que provoca o pânico na metrópole alemã. Interpretado por Peter Lorre, no seu primeiro grande papel no cinema, o criminoso torna-se o centro de uma narrativa que explora não somente o indivíduo, mas também a reacção da sociedade perante o crime. À medida que a polícia intensifica a vigilância, também o submundo criminal se organiza, revelando um sistema paralelo de controlo e justiça.

M – Matou distingue-se pelo uso inovador do som, num período em que o cinema falado ainda dava os seus primeiros passos. Fritz Lang utiliza o silêncio, os ruídos urbanos e o célebre assobio do assassino, baseado em um motivo de Peer Gynt de Edvard Grieg, como elementos narrativos e psicológicos, conferindo ao filme tensão e suspense (curiosamente, Peter Lorre não sabia assobiar, pelo que a célebre melodia foi assobiada pelo próprio Fritz Lang). O som não é usado como simples acompanhamento da imagem, assume um papel estrutural na dramaturgia do filme, reforçando a sua dimensão de thriller. 

Visualmente, o filme herda elementos do expressionismo alemão, nomeadamente no uso de sombras, enquadramentos oblíquos e espaços urbanos opressivos, mas afasta-se da estilização excessiva, aproximando-se de um realismo que perturba e destabiliza. A cidade surge como um organismo vivo, onde o medo se propaga e a fronteira entre justiça e vingança se torna cada vez mais difusa.

Mais do que um filme policial, M – Matou é uma reflexão sobre a responsabilidade colectiva e os mecanismos de exclusão social. A célebre sequência do “julgamento” final confronta o espectador com questões morais que permanecem actuais, tornando o filme numa obra incontornável da história do cinema.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
 
Até terça! 
 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO DOS HOMENS (1924) de F. W. Murnau



Por António Cruz Mendes
 
Realizado poucos anos depois de O Gabinete do Dr. Caligari e de Nosferatu, O Último dos Homens, exemplifica uma nova vertente do expressionismo alemão. Em vez de acontecimentos fantásticos como aqueles que são narrados naqueles dois filmes, este filme de Murnau baseia-se num vulgar fait-divers: um porteiro de um hotel é destituído das suas funções. Além disso, o filme dispensa os intertítulos a que se recorreu nos filmes citados para sustentar a narrativa. Agora, são suficientes as imagens captadas por uma câmara que não está fixa, mas que se move permitindo aos espectador observar a acção de vários ângulos, proporcionando-lhe uma sensação de ubiquidade.

Entre as personagens do filme não encontramos assassinos demoníacos, mas apenas gente comum. Não vamos sequer chegar a saber o nome das pessoas que protagonizam esta história. Os espaços onde decorre a acção resumem-se à entrada e ao átrio dum hotel, aos seus lavabos e às ruas que conduzem ao bairro onde mora o porteiro. E, no entanto, Murnau encontra num pequeno facto, a perda do uniforme, motivo para a abordagem de um terrível drama humano. Um drama pessoal que, aliás, pode assumir uma dimensão política se o quisermos interpretar como uma metáfora da situação da orgulhosa Alemanha vencida na Guerra. Afinal, o porteiro, com o seu uniforme, assemelha-se a um General.

Este drama exprime-se através de um contraste de luz e sombra: as luzes brilhantes que iluminam o átrio do luxuoso hotel e a triste penumbra que envolve a pobreza das casas do bairro onde mora o porteiro. No entanto, aí ele é um senhor, porque o rico uniforme que ostenta aproxima-o, aos olhos das pobres gentes, da condição da classe dominante e conferem-lhe uma autoridade que todos respeitam. Quando perde o estatuto que a sua farda lhe confere, torna-se igual aos demais e é vítima do escárnio de todos. As trevas descem, então, sobre a sua vida e nessa vitória das sombras sobre a luz está tudo: um sentimento de perda, de decadência, da velhice, uma antevisão da morte.

 
 

A personagem central de O Último dos Homens é um porteiro de um grande hotel, cujo prestígio e dignidade se revela na magnífica farda que exibe.


 

A porta giratória oferece um jogo de espelhos que lhe permite rever-se no exercício da autoridade.com que recebe os mais ilustres hóspedes. Mas a porta giratória é também “a roda da vida”, símbolo das incertezas que marcam a condição humana. Será ela quem está no centro da cena fulcral onde assistimos à substituição do velho pelo novo porteiro do hotel.

 
 

Um dia, o porteiro, envelhecido, teve dificuldade em carregar uma mala mais pesada. É destituído das suas funções e remetido para a limpeza dos lavabos. Na imagem, vemo-lo, amesquinhado, diminuído, deslocado para uma zona marginal e obscura do enquadramento. A superfície luminosa do espelho reflecte, agora, a imagem da sua degradação.

 
 

Escarnecido pelos seus vizinhos…
 

 

… resta-lhe sonhar, embriagado, com a grandeza perdida.

 
 

Provavelmente por pressão dos produtores, a versão original termina com um Happy End. O porteiro recebe uma herança de um antigo cliente, milionário, e vamos encontrá-lo a jantar lautamente à mesa do restaurante do hotel.
 

Diz-nos José Manuel Costa em Cem Dias, Cem Filmes (catálogo de Lisboa 94 – Capital da Cultura), que, em cópias restauradas, esse final foi abandonado. O filme acaba como, talvez, Murnau, gostaria que ele acabasse, com a decadência do velho porteiro. No entanto, no filme que hoje apresentamos, respeita-se o argumento de Carl Mayer e incluem-se aquelas sequências finais.


 

domingo, 18 de janeiro de 2026

430ª sessão: dia 20 de Janeiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Último dos Homens” de F.W. Murnau, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
Durante o mês de janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começa o ano de 2026 com um programa dedicado ao cinema mudo. Neste mês, o ciclo “Expressionismo Alemão” apresenta clássicos do cinema alemão dos anos 20 e 30 do século passado. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Esta terça, o ciclo prossegue com o filme O Último dos Homens (Der letzte Mann, 1924), de F. W. Murnau, uma das obras mais inovadoras do cinema mudo e um marco decisivo na evolução da linguagem cinematográfica.
 
O filme acompanha a história de um porteiro de hotel, interpretado por Emil Jannings, cuja identidade e posição social estão profundamente ligadas ao uniforme que enverga. Quando é despromovido para uma função subalterna, o impacto psicológico dessa queda social torna-se o verdadeiro centro da narrativa. Privado quase totalmente de intertítulos, o filme constrói o seu sentido através da imagem e do movimento.

É em O Último dos Homens que Murnau, em colaboração com o diretor de fotografia Karl Freund, introduz de forma sistemática a chamada “câmara desacorrentada” (entfesselte Kamera), libertando a câmara do tripé e explorando movimentos até então inéditos. Este uso expressivo da câmara, aliado a enquadramentos subjectivos e a uma montagem precisa, permite traduzir visualmente o estado emocional da personagem, tornando a forma inseparável do conteúdo narrativo.

Produzido pela UFA, o filme é frequentemente associado ao expressionismo alemão, embora se afaste da estilização extrema dos cenários pintados, optando por espaços reais e uma encenação centrada na experiência interior e psicológica da personagem, inspirado, também, pelo teatro. A abordagem visual de Murnau influenciou decisivamente o “cinema narrativo” das décadas seguintes, antecipando soluções formais que se tornariam comuns no cinema moderno.

Apesar do final imposto pelo estúdio, que introduz uma resolução mais optimista, O Último dos Homens permanece uma obra essencial pela forma como articula imagem, movimento e psicologia, afirmando o cinema como arte visual com uma linguagem autónoma, capaz de narrar sem palavras.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
Até terça-feira!