sábado, 25 de abril de 2020

O sonho de um mundo novo. O “Êxodo” de Schoenberg segundo Straub-Huillet.



por Carlos Fernandes

Schoenberg iniciou a escrita do libreto desta ópera quando já se expectava a possibilidade de um novo “Êxodo” na Europa. A partir de 1920 as manifestações anti-semitas eram tão descaradas que ele próprio, unicamente por ser judeu, foi obrigado a abandonar o hotel onde vivia numa pequena aldeia perto de Salzburgo. 

Afundado nesse presente, o compositor e libretista mergulha nos fundamentos de uma história tão remota, quanto transcendental, transportando-a para a contemporaneidade na estrutura de um texto excepcionalmente vinculado a uma partitura matematicamente pura – o serialismo dos 12 tons. 

Embora incompleta, esta ópera, foi simultaneamente a obra-prima do século XX para uns e uma coisa inacabada para outros. Mas para Straub e Huillet estava lá o material rigoroso e necessário que lhes permitiu ver nesta ópera um filme. 

E Jean-Marie Straub e Danièle Huillet fizeram uma vez mais um trabalho magnífico. Trabalharam no guião entre 1959 e 70, e filmaram entre 73 e 74 no deserto de Louxor, no vale do Nilo e no anfiteatro italiano Alba Fucens, com som directo sob fundo da Orquestra de Viena pré-gravada. 

Tiveram um cuidado extremo com todos os aspectos que pudessem dramatizar deliberadamente a história, construindo um trabalho de câmara com movimentos rigorosos e planos formais em contraponto visual à complexa partitura de Schoenberg. 

A magnitude da abordagem no conflito entre a espiritualidade interior de Moisés e a capacidade de Aarão de comunicar com as massas (a primeira dupla liderança da história), bem como a proeza dos “milagres necessários” que Aarão concebe para convencer o povo a seguir Moisés até a terra prometida, são configurações dignas de reverência. 

Por fim, a fidelidade ao texto e a tudo – o terceiro acto, que tinha ficado por escrever, surge como um recital sublime apoiado em notas do próprio Schoenberg. 

O combate à opressão e o sonho de um mundo novo. 

É importante que as coisas mexam.

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Moisés e Aarão” de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub


Título original: Moses und Aron; De: Danièle Huillet, Jean-Marie Straub; Com: Günter Reich, Louis Devos; Género: Drama, Musical; Classificação: M/12; Outros dados: Alemanha, 1974, Cores, 105 min. 

Sinopse: "Schoenberg é o músico que melhor conhecemos a seguir a Bach", segundo diz Straub. Na sua adaptação da ópera bíblica inacabada do compositor vienense, Straub e Huillet mantiveram-se fieis aos princípios do seu cinema: som directo, cantores ao invés de actores dobrados, "imagens que não bloqueiem a imaginação do espectador", numa atitude diametralmente oposta à do tradicional "filme de ópera". (Fonte: Cinemateca Portuguesa)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo quinto convidado é Carlos Fernandes, que escolheu Moisés e Aarão de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. 

Em entrevista aos Cahiers du Cinéma, em 1975, Straub disse que a ideia para o filme partiu “da primeira representação cénica na Alemanha, que teve lugar em Berlim em 1959. Foi dirigida por Hermann Scherchen. Musicalmente, era a melhor, tirando a que Rosbaud tinha dirigido em concerto. A primeira execução teve lugar em 1952, um ano depois da morte de Schoenberg. A primeira execução cénica teve lugar em Zurique, já não sei muito bem em que ano. A primeira cénica na Alemanha, foi em Berlim, em 1959. Vi-a uma noite por acaso. Eu nunca ia à ópera: não sei porque é que lá entrei. Sem dúvida porque me interessava em Schoenberg, sem o conhecer bem. Musicalmente, era boa, um bocado pior que Rosbaud, mas boa. Em termos cénicos, achei a coisa terrível e tive vontade de fazer um filme que fosse exactamente o contrário. Ainda assim, em termos cénicos, é o que se fez de melhor até agora, incluindo este ano, uma vez que há uma epidemia (para o centenário do nascimento de Schoenberg) de execuções parcial ou totalmente terríveis. Depois dessa noite, telefonei à Danièle, em Paris. Era a primeira vez que lhe telefonava. Não tínhamos dinheiro. Nessa altura vivia entre Berlim Ocidental e a Alemanha Oriental, porque havia bastantes coisas a acontecer no Berliner Ensemble e porque estávamos à procura de documentos para o Bach (a maior parte estava na R.D.A.). A Danièle fez uma cena terrível mas apanhou o comboio nocturno e veio ver isso imediatamente. Voltei a vê-la uma segunda vez. Portanto o projecto remonta a 1959. De facto, esse teria sido o segundo filme que íamos fazer, sendo o primeiro projecto o Bach de 1954!”

Amanhã, a escolha de Jorge Silva Melo.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Holiday” de George Cukor


Título original: Holiday; De: George Cukor; Com: Katharine Hepburn, Cary Grant, Doris Dolan; Género: Comédia; Classificação: M/6; Outros dados: EUA, 1938, Preto e Branco, 95 min. 

Sinopse: O livre-pensador Johnny Case fica noivo de Julia Seton, filha do milionário Ned Seton. Mas entra em choque com a noiva e com o pai dela quando expõe a sua forma livre de viver e ao negar-se a trabalhar, embora queira continuar a ganhar dinheiro. Só é compreendido pela irmã da noiva, Linda Seton, que é considerada a ovelha-negra da família. (Fonte: Cinema Classico Download)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo quarto convidado é o crítico de cinema brasileiro Giovanni Comodo, que escolheu Holiday de George Cukor. 

No início da sua folha da Cinemateca sobre o filme, Bénard da Costa escreve que “Holiday assenta em quatro poderosos pilares, todos eles reutilizados por Cukor no célebre The Philadelphia Story de 1940: na base, uma peça teatral de Philip Barry, célebre boulevardier dos anos 20, 30 e 40; adaptação de Donald Ogden Stewart, argumentista favorito de Cukor e que, com ele, havia colaborado já em Tarnished Lady e Dinner at Eight, e colaboraria, no futuro, em The Women, The Philadelphia Story, A Woman's Face, Keeper of the Flame e Edward My Son, antes de ser posto na lista negra do Senador McCarthy; Katharine Hepburn e Cary Grant. E foi o quarto filme de Katharine com Cukor (depois de A Bill of Divorcement, Little Women e Sylvia Scarlett) e o terceiro filme dela com Cary Grant (depois de Sylvia Scarlett e de Bringing Up Baby de Howard Hawks).” 

Justificando a sua escolha, Giovanni Comodo escreveu-nos que “a comédia de George Cukor traz em estado de graça a dupla Cary Grant (Johnny) e Katharine Hepburn (Linda). Cukor, sempre elegante, sempre discreto, faz do filme uma enorme oportunidade para observar o movimento dos corpos de Grant e Hepburn no espaço: como andam, como se atraem, como respiram próximos um do outro. Grant em estado burlesco, com cambalhotas mil, e Hepburn em pura classe e incendiária. Para além disso, há piadas incessantes do choque de Johnny e seus amigos com a alta roda nova-iorquina. Um filme que não caminha, desliza. Por fim, é difícil pensar em algo melhor para estes tempos do que ficar trancado por um par de horas em um quarto com Grant e Hepburn.” 

Amanhã, a escolha de Carlos Fernandes.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “A Árvore dos Tamancos” de Ermanno Olmi


Título original: L'arbero degli zoccoli; De: Ermanno Olmi; Com: Luigi Ornaghi, Francesca Moriggi, Omar Brignoli; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: Itália, 1978, Cores, 175 min. 

Sinopse: "A Árvore dos Tamancos" foi o filme de Ermanno Olmi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes que trouxe a consagração do realizador italiano. É um filme quase documental, onde são recuperadas características do neo-realismo como a utilização de actores amadores e se faz uma exploração crua mas intensamente poética da realidade. O filme conta a vida de quatro famílias italianas de camponeses no final do século XIX. Vêm da Lombardia, trabalham numa exploração agrícola na região de Bergamo e vivem uma vida comunitária. Todos ajudam sempre que surgem dificuldades como aconteceu no caso de Gopa, um vagabundo que acolheram, ou no nascimento do bebé de Batisti. No entanto, um dia Batisti abate um olmo para fazer uns tamancos para o filho e fica mal visto na comunidade que o acolhia. (Fonte: PUBLICO.PT)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo terceiro convidado é o realizador Billy Woodberry, que escolheu A Árvore dos Tamancos de Ermanno Olmi. 

O cineasta norte-americano disse-nos que «as minhas razões para escolher A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi foram bastante simples. Na altura em que me estenderam o convite para seleccionar um filme para a série, as taxas mais altas de hospitalizações, infecções e morte estavam a acontecer no norte de Itália, na região da Lombardia e em Bergamo. Lembrei-me de Olmi e lembrei-me que ele tinha nascido na região e pensei neste filme belo e comovente que ele lá fez em 1978 sobre a vida dos camponeses no início do século vinte. A minha ideia era que no meio do sofrimento tão grave ligado a este sítio nesta altura, o filme pudesse ser uma oportunidade para partilhar este trabalho com um público como forma adicional de pensar sobre este local e estas pessoas através deste filme.» 

Em entrevista a Bert Cardullo, e discutindo o seu método de trabalho, Ermanno Olmi disse que “sou uma pessoa que ainda trabalha bastante na Moviola. Para A Árvore dos Tamancos, estive lá um ano inteiro. A montagem é o momento em que todas as emoções que senti quando comecei a pensar no filme, a concebê-lo, a escolher os locais de filmagem, as caras – estas coisas todas – a montagem é o momento em que tudo se conjuga. Pode-se dizer que durante esse tempo, eu ajusto as minhas contas, trabalho esta escolha ou aquela síntese, resumo a emoção de todas as minhas emoções no que diz respeito a este filme em particular. Não é trabalho administrativo no sentido em que olho para o guião e digo, “OK, para esta cena precisamos de um corte tal e tal. E para aquela cena é necessário um grande plano .” É um novo momento criativo, um momento extraordinário. Isto é porque eu raramente escrevo argumentos sistemáticos e organizados; em vez disso, rabisco uma data de notas. Quando estou a rodar, apareço no plateau com essas notas todas – pedacinhos de papel cheios de apontamentos sobre o diálogo, a atmosfera, as caras – e aí, no plateau, começo uma nova fase crítico-criativa – e não crítico-executiva – enquanto penso nos planos que quero tirar. A montagem, naturalmente, é uma continuação deste processo crítico-criativo.” 

Amanhã, a escolha de Giovanni Comodo.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Querido Diário” de Nanni Moretti


Título original: Caro Diario; De: Nanni Moretti; Com: Giovanna Bozzolo, Nanni Moretti, Sebastiano Nardone; Género: Drama, Comédia; Classificação: M/12; Outros dados: Itália/França, 1994, Cores, 100 min. 

Sinopse: "Querido Diário" é um misto de comédia e documentário autobiográfico dirigido e interpretado por Nani Moretti. O filme, que valeu ao cineasta o prémio melhor realizador em Cannes em 1994, divide-se em três partes. Na primeira, Moretti percorre as ruas de Roma, no Verão, de vespa, claro. Na segunda, viaja com um amigo pela Sicília e na terceira consulta vários médicos por causa dum linfoma. (Fonte: PÚBLICO)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes - Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo segundo convidado é o crítico de cinema brasileiro Bruno Andrade, que escolheu Querido Diário de Nanni Moretti, e nos diz de sua justiça: 

«UN BICCHIERE D'UMANITÀ 

1. As imagens que chegaram da Itália, ainda no início da atual crise, das pessoas nas varandas dos seus apartamentos, embaladas pelas mesmas canções; vídeos no Youtube, no Instagram, lives do Facebook; condomínios fechados, mas também antigos prédios próximos a piazzas e vias; sets que vão de Adriano Celentano a Corona (a banda italiana capitaneada pela brasileira Olga Maria de Souza), o compartilhamento e a socialização; a descontração, essa verdadeira arte de viver dos italianos... Tudo isso estranhamente me faz pensar na passagem em que Nanni Moretti diz querer fazer um filme só sobre casas, sobre as fachadas das casas, enquanto passeia de Vespa por vários bairros romanos. A mobilidade, a desenvoltura, a extroversão. Impossível, diante dessas imagens dos cidadãos encontrando novas formas de convívio, não lembrar de Moretti e do seu filme. Dialética estranha, de certa forma inquietante, tão italiana, essa da deambulação e do ócio. Caro diario parece ocupar-se totalmente dela nos seus três episódios: o homem que vagueia livremente, solitariamente pela cidade e chega à orla de Ostia como que num circuito fechado; as ilhas, a vontade de isolamento, mas também a vontade de aprender a dançar; a doença, a busca pela cura, a necessidade da comunicação; entregar-se ao desconhecido, colocar-se nas mãos do outro, aceitar aquilo que a vida coloca nos nossos caminhos. E ao fim de tudo um copo d’água que revigora corpo e espírito. Não consigo pensar em outro filme que fale tantas coisas sobre o presente momento.

2. Muita coisa a aprender com os italianos, em todas as horas, principalmente em matéria de catástrofe (desde, é óbvio, os tempos do império): foram eles que se prepararam antes de todos para aquilo que seria o futuro da comunicação (a intuição que fez Moretti pegar o bastão do Rossellini tardio e rascunhar a partir dos anos 1990 aquilo que mais tarde se confirmaria com a selfie, o vídeo-diário, as lives); foram eles que viram primeiro o seu cinema popular sucumbir completamente pela idiotização televisiva do público (segunda metade dos anos 1980); foram eles que elegeram primeiro um palhaço midiático proto-fascista, foram eles que desde então precisaram lidar com isso (primeira metade dos anos 1990 - as duas coisas, por sinal, idiotização televisiva e eleição de Berlusconi, interligadas); são eles que estão mostrando como lidar com essa realidade que potencialmente leva a um filme de Tsai Ming-liang (nada mau enquanto filme, mas um tanto trevoso para se viver no dia-a-dia), transformando-a em um filme de Moretti (mesmo que ao som do Azzurro de Adriano Celentano).

3. Num país que reúne Adriano Celentano e Nanni Moretti sempre pode acontecer coisas interessantes, leia-se paradoxais por natureza: Moretti, ex-militante do PCI, cruza com um morador de Casal Palocco - "cães de guarda atrás dos portões, pizza pré-pronta, videocassete, pantufas", em suma, o equivalente romano do eleitor do PSDB/DEM/NOVO - e começa uma conversa.

4. O verdadeiro contraplano de todo filme italiano, de todo o cinema italiano (neorrealismo, commedia all'italiana, peplum, melodrama, giallo, mesmo o cinema de poesia e o faroeste/filme de pirata/poliziottesco nas mãos de Sollima e Damiani), é o social.

5. Uma força regeneradora parece atravessar todo o filme, indescritível como tal, mas perceptível nesses passeios por Roma, nas viagens marítimas rumo às ilhas, e mesmo nas inúmeras consultas com médicos de todo o mundo. Essa força parece mais e mais necessária para enfrentarmos os desafios dos dias vindouros. Inevitavelmente.» 

Amanhã, a escolha de Billy Woodberry.

terça-feira, 21 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Nathalie Granger” de Marguerite Duras


Título original: Nathalie Granger; De: Marguerite Duras; Com: Lucia Bosé, Jeanne Moreau, Gérard Depardieu; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: França, 1973, Preto e Branco, 83 min. 

Sinopse: Crónica da vida quotidiana de uma mulher e da sua filha, que partilham a casa com uma amiga e a filha dela. Silêncios, tarefas domésticas, corredores, notícias inquietantes na rádio, telefonemas do departamento de imigração. 

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo primeiro convidado é Mathilde Ferreira Neves, que escolheu Nathalie Granger de Marguerite Duras. 

Numa entrevista a Leopoldina Pallotta della Torre publicada em La Passione sospesa (1989), e sobre o filme, Marguerite Duras disse que “eu adorava a ideia de trabalhar com duas grandes estrelas, invertendo o cliché e mostrando os corpos delas de trás, ou as mãos delas, sem me demorar nas pernas, nos rostos e nos seios delas. 

"Queria fazer um filme que respeitasse o ritmo da mulher, sem apelar à feminidade habitual, tão desgastada. Tenho belas recordações deste acordo entre mulheres, elas as duas e eu. 

“Quanto a Jeanne, desde a época de Moderato cantabile que me apercebi da inteligência extraordinária do olhar dela, com a seriedade com que interiorizava os seus papéis. Enquanto rodava com Brook, vinha constantemente a minha casa para me pedir informações sobre a vida de Anne Desbaresdes, que eu própria era obrigada a inventar no momento para a contentar. 

"A Jeanne é muito parecida comigo: ambas tínhamos sido atravessadas pela força de um amor durante a nossa vida toda. Não necessariamente de um amor que já existisse, mas por qualquer coisa que ainda lá não estava, que ia chegar ou acabar." 

Mathilde Ferreira Neves escreveu-nos que “para Marguerite Duras, Nathalie Granger é, antes de mais, o trabalhar da matéria do feminino: da função que as mulheres têm tido e mantido ao longo dos séculos, das angústias da mãe de Nathalie, que são, no fundo, as angústias de qualquer mãe. Mas o que é, efectivamente, importante para a realizadora é que o filme, muito para além de ser uma afirmação do feminino, é uma negação da sociedade tal como a conhecemos.” 

Uma homenagem a Lucia Bosè (extraordinária actriz neste filme), recentemente falecida devido à pneumonia covidiana. 

Amanhã, a escolha de Bruno Andrade.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Não há amores infelizes



por Paulo Faria

Numa entrevista dada em 1961, no ano seguinte à estreia de A Bout de Souffle (O Acossado), Jean-Paul Belmondo contou que, quando o abordou para fazerem este filme, Godard lhe passou para a mão três folhas pequenas, nas quais escrevera: «O fulano parte de Marselha, rouba um automóvel, quer ir novamente para a cama com a rapariga, mas ela não quer. No final, ele morre ou foge. Logo se vê.» Desde os primórdios da sua concepção, portanto, O Acossado foi um filme sob o signo da liberdade absoluta. Um filme que nasceu sem guião, sem final predefinido, ao sabor do génio de Godard. E vê-lo é para mim, sempre, uma experiência radical de liberdade. Durante os 87 minutos que O Acossado dura, sou livre. O filme acaba e regresso à minha condição de homem agrilhoado às minhas ansiedades, aos meus medos, às minhas inseguranças. 

Reza a lenda (e, neste caso, a lenda coincide com a realidade) que, durante as cinco semanas que durou a rodagem, Godard se sentava todas as manhãs na sala dos fundos de um café parisiense e se punha a escrever os diálogos para as filmagens daquele dia. Ao fim de uma hora ou duas, ia ter com Belmondo e Jean Seberg, que estavam na esplanada, a matar o tempo depois do pequeno-almoço, e entregava-lhes os diálogos. Eles liam, davam as suas sugestões e, logo em seguida, as filmagens começavam. Para um ansioso incurável como eu, imaginar este método de trabalho tem qualquer coisa de assombroso, deixa-me siderado, cheio de um misto de admiração e inveja. Sei que, numa situação assim, seria incapaz de escrever uma linha de jeito, um diálogo como deve ser. Sei que a minha criatividade não resistiria a esta prova de fogo. O génio talvez seja apenas isto: a inteligência descontraída. Ao pequeno-almoço, Godard escrevia tranquilamente os diálogos do dia, pensando, provavelmente, «eles que esperem». Diálogos geniais, réplicas fulgurantes, tudo com aquele travo de espontaneidade sem ligeireza, de sagacidade cortante, mas sem arrogância. 

Godard incentivava os actores a improvisarem, a darem ideias, a serem livres. Belmondo sentia-se como peixe na água neste ambiente caótico, Seberg nem por isso. Godard não tinha autorização para filmar em muitos locais onde o fez. Os exteriores foram rodados à socapa, à má-fila, ou então à descarada, a pisar o risco. O Acossado é um filme transgressivo até ao osso, livre até ao tutano. Nos Campos Elísios, no célebre diálogo em movimento entre Seberg e Belmondo («New York Herald Tribune!», apregoa ela de vez em quando, numa voz que me comove, porque sei como ela foi infeliz, como morreu tragicamente), Godard usou uma câmara oculta, montada num carrinho de três rodas coberto por um oleado escuro, onde haviam recortado um buraco para a lente. Dentro do carrinho, todo encolhido, o operador de câmara invisível recolhia as imagens, como um repórter de guerra. Quanto aos interiores, improvisou-se: o quarto da rapariga a quem o herói furta dinheiro, logo no início do filme, era o quarto da própria actriz, Liliane David, e os móveis, objectos e roupas que ali vemos eram os dela. Nas filmagens, usaram-se os automóveis dos amigos de Godard, o Simca do próprio Godard, o descapotável Triumph de dois lugares do marido de Seberg. E as personagens secundárias do filme foram, quase todas, interpretadas por amigos e colaboradores de Godard. Já para não falar dos figurantes, que o foram no verdadeiro sentido da palavra: meros transeuntes que apareceram no filme sem querer, desprevenidos, que se desviaram dos actores e ficaram a olhar para a câmara, espantados com o que se estava a passar. Tudo isto transparece no filme, mas, como que por magia, não há, no produto final, ar de improviso nem de coisa atabalhoada. O Acossado é a vida tal como ela é, caótica, trepidante, febril. 

Michel Poiccard (Belmondo) e Patricia Franchini (Seberg) são o casal mais arrebatador da história do cinema. Eu sempre quis ser Michel Poiccard, mas sempre soube que nunca o seria. Ele é um malandro de coração puro, eu sou um obsessivo-compulsivo, incapaz de mandar os outros passear, incapaz de mandar o mundo passear. Mas, sempre que quero, durante 87 minutos, sento-me em frente ao ecrã e sou Michel Poiccard. Ele corre desalmadamente o filme inteiro, naquelas suas passadas largas e ligeiras, com aqueles seus movimentos elásticos e felinos, e, mesmo moribundo, alvejado a tiro nas costas, continua a correr, a correr sem parar. Acende cigarros uns nos outros, pergunta as horas a toda a gente, compra jornais atrás de jornais, faz telefonemas atrás de telefonemas. É um marginal bizarro, pouco convencional, que corrige o francês das namoradas, que prefere «os velhos» à juventude. Conta histórias fantasiosas sobre as suas origens, sobre o pai, sobre o avô, olha-se longamente ao espelho, mente, rouba. Não possui uma beleza convencional. Tem o nariz esborrachado, os lábios grossos, os olhos esbugalhados. Patricia, por seu lado, pergunta constantemente o significado das palavras e expressões francesas que não entende, faz um ar pensativo, magoado, parece hesitar. Há nela uma tristeza funda, sem remédio. Tem as mãos feias, de dedos curtos, mas um rosto de anjo, um sorriso arrebatador. Tira os sapatos brancos de salto alto e corre, mas o correr dela é ligeiro, os pés quase não lhe tocam no chão. 

Também ela se vê inúmeras vezes ao espelho. Michel e Patricia parecem duvidar da própria existência, parecem precisar de se certificar de que não se eclipsaram, de que ainda estão ali. São duas crianças, crianças como eu nunca soube ser. Brincam com bonecos de peluche, macaquinhos e ursos, e, na lendária sequência no quarto do Hôtel de Suède, entregam-se a jogos pueris. Ele diz-lhe: «Vou contar até oito. Se não sorrires para mim, estrangulo-te», e, pouco depois, é ela quem lança um desafio: «Vou olhar-te nos olhos, e veremos quem é o primeiro a desviar o olhar.» Das duas vezes, é Patricia quem perde, quem fraqueja. Da primeira vez, quando ele conta muito devagar, como fazem os garotos, «sete, sete e meio, sete e três quartos», ela deixa-se vencer e sorri. Da segunda vez, é também ela quem cede e desvia os olhos, para logo espreitar o rosto dele através de um cartaz enrolado, como fazem as crianças para se esconder. Dir-se-ia que é ela a mais vulnerável, a mais pueril. No fim de contas, não é bem assim. No fim de contas, é Michel o idealista, que declara: «Dizem que não há amores felizes. É precisamente ao contrário. Não há amores infelizes.» Ao passo que Patricia, racional, fria, afirma: «Fiz-te mal para ter a certeza de que não te amo.» 

Todo o filme se joga na tensão entre a infância (ou antes, a juventude como prolongamento da infância), despreocupada e transgressora, e a idade adulta, aborrecida e regrada. O Acossado é um filme para meninos sérios como eu, que foram adultos antes do tempo e que, depois, passam a vida a querer ser crianças. Em vão, claro. Michel e Patricia são crianças a tentar apreender o mundo. Debitam generalizações sobre «os franceses», «as mulheres», «os homens», «as suecas», «os americanos», como se tentassem organizar o caos que os rodeia. Como se tentassem criar à sua volta um mundo previsível, para não terem tanto medo. 

Numa cena lindíssima, Patricia, ao atravessar a rua numa passadeira, marcada no empedrado escuro com duas fiadas paralelas de chapas metálicas redondas, saltita de chapa em chapa, como uma criança a cruzar um regato, de pedrinha em pedrinha. No final, traído por Patricia, que escolheu, afinal, a sensatez e a vida adulta, Michel morre, estendido no empedrado da rua, numa passadeira em tudo idêntica àquela, entre duas fiadas de chapinhas redondas. Caído de costas, solta a sua última baforada de fumo de tabaco. Segue-se uma troca de palavras, a última do filme, em que, sucessivamente, Michel, o agente da polícia e Patricia usam de novo a palavra que já tantas vezes foi declinada ao longo da película, em milhentos contextos: «dégueulasse» («nojento»). Patricia faz então o mesmo que ela e Michel tantas vezes fizeram ao longo do filme, isto é, fitar a objectiva e falar directamente comigo. E, por último, a palavra «Fim» surge no ecrã em letras garrafais, e eu torno a ser adulto e esquizofrénico, torno a viver a minha vida de todos os dias. Mas, durante 87 minutos, fui Michel Poiccard, namorei com Patricia Franchini. De noite, sonho que Godard mudou de ideias e decidiu optar pelo outro final, rabiscado nas folhas que mostrou a Belmondo. Sonho que Michel e Patricia fogem de carro para Roma, têm filhos e vivem felizes para sempre. Sonho que Michel Poiccard tem, afinal, razão: não há amores infelizes. 

Março de 2020