terça-feira, 30 de junho de 2020

168ª sessão: dia 2 de Julho (Quinta-Feira), às 21h30


Terminando a pausa forçada pela pandemia, temos o prazer de informar que em Julho regressamos às sessões. Vão ser na Casa dos Crivos e vão perfazer a primeira parte de um ciclo "Buñuel no México", com Los Olvidados (dia 2), Susana (dia 9), La hija del engaño (dia 16), Una mujer sin amor (dia 23) e El Bruto (dia 30), na companhia dos grandes Alfonso Mejía, Miguel Inclán, Rosana Quintana, Fernando Soler, Pedro Almendáriz e Katy Jurado.

Sobre o filme da próxima sessão, e em «Da Vida e Obra de Luis Buñuel», João Bénard da Costa escreveu-nos que "Buñuel contou, muitas vezes, que o ponto de partida para Los Olvidados fora Sciuscià de De Sica e o entusiasmo de Dancigers pelo neo-realismo italiano. Mas este filme sobre meninos pobres, feios e maus nada tinha de amanhãs que cantam. Um cadáver atirado aos porcos é o seu fim. «Estoy solo... solo» diz o protagonista ao morrer «Como siempre, mi hijito, como siempre... Duérmete, duérmete», diz em off a mãe, presença sexual e letal, leit-motif do filme.

"Ainda hoje, Buñuel manifesta a sua gratidão a um texto escrito para Cannes pelo grande poeta Octavio Paz que assinou estas linhas exactas e admiráveis: «O conflito entre a consciência humana e a fatalidade externa é a essência da tragédia. Buñuel redescobriu esta ambiguidade fundamental: sem a cumplicidade humana o destino não se cumpre e a tragédia é impossível. A fatalidade oculta-se sob a liberdade, a liberdade oculta-se sob o destino. A velha fatalidade regressa neste filme, despida dos seus atributos sobrenaturais: é uma fatalidade social e psicológica»."

No mesmo texto de Octavio Paz acima citado, o poeta diz que "Os Esquecidos não é um filme documental. Também não é um filme de tese, de propaganda ou de moral. Embora nenhum moralismo manche a sua objectividade admirável, seria difamatório dizer que se trata de um filme estético, em que só contam os valores artísticos, longe do realismo (social, psicológico e edificante) e do esteticismo, o filme de Buñuel inscreve-se na tradição de uma arte passional e feroz, contida e delirante, que reclama Goya e Posada como antecedentes, talvez os artistas plásticos que levaram mais longe o humor negro. Lava fria, gelo vulcânico. Apesar da universalidade do seu tema, da ausência de cor local e da extrema nudez da sua construção, Os Esquecidos coloca uma entoação para a qual não há outra escolha que não chamar racial (no sentido em que os touros têm casta). 

"A miséria e o abandono podem acontecer em qualquer parte do mundo, mas a paixão feroz com que são descritas pertence à grande arte espanhola. Já vimos esse mendigo cego no picaresco espanhol. Essas mulheres, esses bêbados, esses cretinos, esses assassinos, esses inocentes, vimo-los em Quevedo e em Galdós, vislumbramo-los em Cervantes, retrataram-nos Velásquez e Murillo. Essas varas – varas de cego - são as mesmas que se ouvem em todo o teatro espanhol. E os miúdos, os esquecidos, a sua mitologia, a sua rebeldia passiva, a sua lealdade suicida, a sua doçura que relampeja, a sua ternura plena de ferocidades requintadas, a sua afirmação desgarrada de si próprios na e para a morte, a sua busca sem fim pela comunhão – ainda através do crime - não são nem podem ser senão mexicanos. Assim, na cena chave do filme – a cena onírica - o tema da mãe resolve-se na cena em comum, no festim sagrado."

Já Jacques Lourcelles escreveu no Dictionnaire que "em Terra Sem Pão, o seu documentário admirável de 1932, Buñuel não só tinha retratado a miséria extrema e o abandono extremo de uma população espanhola, como tinha encontrado (era o aspecto experimental desse filme) um tom único para os retratar: uma indignação secreta, profundamente enrolada na imagem, um recurso à constatação, glacial e quase insuportável. Esse mesmo tom é reutilizado nesta terceira longa-metragem mexicana que marca o início da segunda carreira do cineasta (ele vai conhecer muitas outras) graças ao sucesso obtido pelo filme no Festival de Cannes de 1951. Efectivamente, a crueldade (excepcional para a época) dos acontecimentos relatada pela intriga é igualada apenas pela frieza impassível com que essa crueldade é exprimida. Sem que Buñuel tenha de insistir ou sublinhar as suas intenções, tudo aqui acusa a miséria e a injustiça social como os principais responsáveis do destino trágico destas crianças transformadas em carrascos, em assassinos, ou vítimas abandonadas e martirizadas. Segundo o próprio Buñuel, o filme foi inspirado por Sciuscià de De Sica e de forma mais geral pelo neo-realismo italiano. Houve um trabalho de documentação e pesquisa nos bairros miseráveis da cidade a anteceder a realização do filme. Mas entre o realismo mais cru irrompem em grande número imagens insólitas, eróticas, oníricas, obsessões e sonhos inteiros que fazem mergulhar o filme nas fontes surrealistas do universo buñueliano. E a terrível crueldade da obra é tanto o resultado de um olhar frio lançado sobre o mundo como influência de uma tradição estética espanhola. No entanto, e com toda a sua força, o filme, comparado a outros Buñuel, ainda não passa de um esboço. A construção e o ritmo, em particular, estão longe de ser perfeitos.

"BIBLIO. : argumento e diálogos in « L'Avant-Scène » nº 137 (1973). Tradução inglesa no volume 35 da colecção « Classic and Modern Film Scripts », Londres, Lorrimer, 1972."

Até Quinta-Feira!

Em Julho, no Lucky Star:



segunda-feira, 11 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Os Melhores Anos da Nossa Vida” de William Wyler


Título original: The Best Years of Our Lives; De: William Wyler; Com: Myrna Loy, Fredric March, Dana Andrews, Harold Russell, Teresa Wright; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: Estados Unidos, 1946, Preto e branco, 172 min. 

Sinopse: Filme dramático norte-americano realizado em 1946 por William Wyler, The Best Years of Our Lives foi interpretado por Myrna Loy, Fredric March, Dana Andrews, Harold Russell, Teresa Wright e Virginia Mayo, entre outros. O argumento foi escrito por Robert E. Sherwood, baseando-se no livro Glory For Me, de MacKinlay Kantor. Tratando-se de um clássico sobre o regresso a casa, depois da guerra, e as dificuldades de adaptação à nova vida civil, o filme centra-se em três homens: Al Stephenson (Fredric March), Fred Derry (Dana Andrews) e Homer Parrish (Harold Russell). Os três regressam a casa juntos, atormentados pelas memórias recentes da guerra e com dúvidas acerca do seu futuro. Quando chegam, seguem diferentes caminhos. O marinheiro Homer regressa a casa sem mãos, Al regressa para a sua esposa Milly (Myrna Loy), filhos e o antigo emprego num banco, e Fred encontra uma mulher que praticamente o abandonou e não tem perspetivas de trabalho. (Fonte: infopédia)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O último convidado é Filipa Gambino, que escolheu Os Melhores Anos da Nossa Vida de William Wyler. 

Em jeito de conclusão, escreve-nos que “o ecletismo deste ciclo (de uma maneira pouco premeditada já que a curadoria foi distribuída por tantas pessoas quantos os filmes que por aqui passaram) acabou, de certa forma, por reflectir os vários estágios pelos quais passámos durante esta quarentena. O terror do vírus desconhecido em Cassandra Crossing, ou da peste em A Máscara da Morte Vermelha, ou da cólera em 7 Mulheres; a estranheza da impossibilidade de sair do confinamento em O Anjo Exterminador, a necessidade de evasão em E.T. - O Extraterrestre ou Querido Diário, os dramas familiares como Spencer’s Mountain ou O Túmulo dos Pirilampos e tantos outros e tão bons onde pudemos encontrar paralelos com a situação em que nos encontramos. 

“Escolhi Os Melhores Anos das Nossas Vidas porque descobri nele ecos para as perguntas que me invadem agora o pensamento, nesta fase de desconfinamento: vamos encontrar o mundo ainda como o deixámos? Haverá lugar nele para nós? Saberemos/poderemos ainda abraçar os que amamos? Terá o pior já passado? Tudo perguntas que atormentam estes 3 veteranos de guerra que Wyler acompanha no regresso a casa. 

“Ao longo do filme o desconforto é palpável, o desajustamento destes homens às realidades às quais regressam quase que nos fere. No entanto, ou por isso mesmo, está cheio de vida e beleza. Particularmente marcantes os momentos em que Wyler recorre à profundidade de campo como forma de contar as histórias dos três homens ao mesmo tempo. Acontece no bar onde os três amigos se costumam encontrar mais que uma vez (Fred, no fundo, ao telefone com Peggy), acontece no magistral plano final: toda a força do poder redentor do amor numa única imagem. 

“Esperemos que seja também esse poder redentor do amor a salvar-nos agora e que os melhores anos das nossas vidas estejam, afinal, ainda por viver.”

domingo, 10 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Adventure on Happiness Street” de Jacques Tourneur


Título original: Adventure on Happiness Street; De: Jacques Tourneur; Com: Barbara Stanwyck, Lew Ayres, Robert Culp, Allen Jung, and Victor Sen Yung; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: Estados Unidos, 1961, Preto e branco, 23 min. 

Sinopse: Josephine acha que consegue ajudar o Dr. Paul Harris a arranjar medicamentos para a sua clínica usando apenas os seus contactos comerciais. 

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O quadragésimo convidado é o crítico e programador de cinema norte-americano Andy Rector, que escolheu Adventure in Happiness Street, episódio da série de televisão "The Barbara Stanwyck Show" realizado por Jacques Tourneur em 1961.

Robert Culp, que aparece neste episódio, contou uma pequena história de rodagem à Television Academy Foundation, dizendo que fez “um programa de meia-hora, o "Barbara Stanwyck Theater" [nota: "The Barbara Stanwyck Show"] – e lembro-me, sabe, de ficar arrebatado com a ideia de trabalhar com Barbara Stanwyck. Fui para o plateau, logo, e esta mulher era famosa por saber os primeiros nomes de cada tipo, dos gajos lá de cima, de toda a gente atrás das câmaras, do tipo que limpava o chão, e chamava-os a todos pelo primeiro nome todas as manhãs. Toda a gente simplesmente adorava esta mulher. Bom, eu entrei em cena com ela pela primeira vez, para ensaiar, olhei para ela e ela devolveu-me o olhar. Nessa altura ela não estava casada. Eu estava muito casado. E aquela coisa aconteceu como se se estivesse de pé a abanar uma bandeira. E eu pensei, “Oh, meu Deus.” E não sei quão mais velha que eu ela era, não faço ideia, mas está a ver, isso é um momento que não se esquece, nunca, a vida toda.”

Situando a sua escolha no ciclo e nos tempos que vivemos, Andy Rector disse-nos, “Olhem para este filme. É a armadilha em que estamos todos até hoje! E como na nossa era, não há solução que se encontre; temos de ser nós próprios a produzi-la, ou sair para morrer na rua. Este episódio de televisão chegou-nos numa cópia sem os últimos dois minutos, isto é, sem o monólogo final típico de cada episódio e dito pela anfitriã Barbara Stanwyck para reconciliar o que vimos.”

Amanhã, a escolha de Filipa Gambino

sábado, 9 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Themroc” de Claude Faraldo


Título original: Themroc; De: Claude Faraldo; Com: Michel Piccoli, Béatrice Romand, Marilù Tolo, Francesca Romana Coluzzi, Jeane Herviale; Género: Comédia; Classificação: M/18; Outros dados: França, 1973, Cores, 110 min. 

Sinopse: Retrata a revolta de um trabalhador contra o quotidiano de miséria a que se encontra submetido. O seu despertar leva-o à procura do fruir dos instintos mais primitivos reprimidos pela domesticação da sociedade industrial, e ao repelir das instituições causadoras dessa repressão. Sem linguagem conceptual durante todo o filme, uma obra prima de crítica à civilização. (Fonte: filmow)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo nono convidado é o músico Adolfo Luxúria Canibal, que escolheu Themroc de Claude Faraldo, dizendo-nos «o confinamento ou a libertação da vida.» 

Numa entrevista de 2005 ao jornal L'Humanité, e quando lhe perguntaram qual achava ser o seu lugar no cinema francês, Faraldo disse que “em lado nenhum. Eu não conhecia o cinema. Não era cineasta nem sequer cinéfilo. Tinha visto alguns filmes, e é tudo. Nunca me tinha aproximado de uma câmara e nem sequer sabia que se podiam mudar as ópticas. Era uma época diferente da sociedade e talvez do cinema. Era apenas motorista de entregas, o que é contado em Bof, filme que podia mentir mas não mente. 

Bof foi tirado dos cinemas e Langlois passou-o na Cinemateca. Descobri esse senhor gordo que parecia conhecer e amar o cinema. Apresentou-me a umas pessoas. É preciso dizer que eu era contra o parisianismo. Em minha casa, éramos comunistas, adorávamos Montand e Aragon. Os outros todos eram intelectuais que falavam. O cinema não era razoável. Com Themroc, quis fazer um filme que valesse e por si só e não trouxesse analogia nenhuma, é por isso que não há lá linguagem nenhuma. Nunca senti que tivesse um lugar no cinema.” 

Amanhã, a escolha de Andy Rector.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Céline et Julie vont en bateau” de Jacques Rivette


Título original: Céline et Julie vont en bateau; De: Jacques Rivette; Com: Juliet Berto, Dominique Labourier, Bulle Ogier; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: FRA, 1974, Cores, 185 min. 

Sinopse: Viagem ao "outro lado do espelho" em que Julie é o Coelho Branco que leva Céline (Alice) para o seu mundo fantástico de magia e histórias rocambolescas. A frescura, a irreverência e o sonho (e a memória dos grandes "serials" americanos) no mais acessível e divertido filme de Rivette. (Fonte: Cinemateca Portuguesa)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo oitavo convidado é a cineasta Sílvia das Fadas, que escolheu Céline et Julie vont en bateau do misterioso cineasta francês Jacques Rivette, comentando simplesmente: «Para uma explosão de alegria incandescente.» 

Em Sexual Politics and Narrative Film, Robin Wood disserta sobre esta obra de Rivette, escrevendo que “os créditos atribuem o argumento a Juliet Berto (Céline), Dominique Labourier (Julie), Bulle Ogier, Marie-France Pisier e, finalmente, Rivette, "em diálogo com" Eduardo di Gregorio; as mulheres trabalharam os seus próprios papéis e determinaram todo o progresso do filme, com Rivette a fornecer apenas um ponto de partida sugerido. Com Berto e Labourier em particular, a distinção entre actor e personagem é continuamente ofuscada: temos muitas vezes a impressão que Céline e Julie estão a construir o filme das suas imaginações, enquanto avança. Em lugar do tradicional progresso de leitura através do qual se decifra um trabalho previamente construído para se poder chegar e partilhar da posição privilegiada de conhecimento do autor, aqui partilha-se, a um grau invulgar, do processo de construção, tornando-se a divisão entre isso e o processo de leitura mais estreita do que em qualquer filme de ficção anterior em que consiga pensar. Ao mesmo tempo, o processo de leitura tradicional é levado a primeiro plano com as tentativas de Celine e Julie em decifrar a história dentro da "Casa de Ficção," vivenciadas inicialmente em fragmentos tentadores: elas tornam-se as leitoras de um romance, espectadoras numa peça, o público numa sala de cinema (debatendo, a dada altura, se deveria ou não haver um intervalo, e decidindo contra)-—mas os leitores/ espectadores que recebem miraculosamente o poder de entrar na ficção, intervêm na acção, e mudam o desenlace predeterminado.”

Amanhã, a escolha de Adolfo Luxúria Canibal.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Os Pássaros” de Alfred Hitchcock


Título original: The Birds;  De: Alfred Hitchcock; Com: Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Susanne Pleshette; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: Estados Unidos, 1963, Cores, 120 min. 

Sinopse: Um dos maiores êxitos públicos de Hitchcock e uma das suas obras mais perfeitas. Adaptado de um conto de Daphne du Maurier, THE BIRDS segue a personagem de Tippi Hedren na ida à cidade costeira de Bodega Bay e ao encontro de uma estranha revolta de aves que começam a atacar as pessoas. Como estrelas dos efeitos especiais deste filme, elaboradas miniaturas de pássaros, que foram combinadas com pinturas e uso de retroprojeção. (Fonte: Cinemateca Portuguesa)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes - Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo sétimo convidado é o programador Francisco Rocha, autor do blog My Two Thousand Movies, que escolheu Os Pássaros e justifica assim a escolha de uma das máximas obras-primas do mestre Hitchcock: 

«O homem luta entre si praticamente desde que existe, com a sobrevivência da humanidade a ser muitas vezes posta à prova no meio dessas guerras. Nunca levou muito a sério o seu inimigo mais natural, a natureza. Temos o exemplo da pandemia que estamos a atravessar, e também foi assim no filme de Alfred Hitchcock, Os Pássaros, de 1963, onde várias espécies de pássaros de uma pequena comunidade começam a atacar os humanos sem razão aparente. 

Revi The Birds algures a meio de Abril, quando a pandemia já ia bem desenvolvida. Na altura, já era uma forte ameaça, e uma verdadeira incógnita sem resolução à vista. O inimigo invisível avançava a uma velocidade avassaladora, e ameaçava chegar à nossa porta rapidamente. No filme de Hitchcock o inimigo não é invisível, mas é uma força que não temos capacidade de compreender, nem de destruir, e chegamos ao fim sem saber o que realmente transformou os pássaros em criaturas assassinas. Provavelmente vai acontecer o mesmo com este vírus, apareceu e vai desaparecer deixando muitas questões sem resposta. 

Apesar de mais de 50 anos separarem o filme da realidade que vivemos, temos vários pontos em comum. Um deles é, por exemplo, a personagem interpretada por Tippi Hedren, uma socialite rica que viaja até à pequena comunidade de Bodega Bay na tentativa de pregar uma partida ao homem que a insultou. A certa altura, depois dos pássaros darem início os ataques de forma organizada, os habitantes desta comunidade começam a duvidar desta personagem, como se ela pudesse estar no centro de todos os acontecimentos (tudo começou com ela e ela está sempre presente). Na actualidade existe uma situação parecida. Ninguém sabe nada sobre as raízes do vírus, por enquanto não passam de suposições, mas no entanto já meio mundo aponta o dedo para a China, que é a Tippi Hedren desta realidade. Hitchcock também deixa a dúvida a pairar no ar, se Hedren tem alguma coisa ou não a ver com os ataques. 

The Birds é um filme muito actual, mesmo que já o tenham visto, está na altura ideal para o reverem, e por certo que irão encontrar mais pontos em comum com o nosso mundo de 2020.» 

Amanhã, a escolha de Sílvia das Fadas.