segunda-feira, 20 de novembro de 2023

321ª sessão: dia 21 de Novembro (Terça-Feira), às 21h30


Segunda longa-metragem de Kinuyo Tanaka no auditório da BLCS 

No mês de Novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga exibe quatro filmes, iniciando o mês com um lançamento e uma carta branca ao escritor covilhanense Manuel da Silva Ramos e promovendo um pequeno ciclo de três filmes dedicado à cineasta japonesa Kinuyo Tanaka. 

Amanhã é exibido A Lua Ascendeu, da actriz e realizadora japonesa Kinuyo Tanaka, nascida em 1909 e falecida em 1977. Esta sua segunda obra centra-se nas vidas de um pai viúvo e as suas três filhas: a mais velha, Chizuru, que regressou a casa depois da morte do marido, a do meio, Ayako, que já se pode casar mas se deixa ficar em casa com o pai, e a mais nova, Setsuko, que se quer mudar para a capital. 

Baseado num guião original de Yasujiro Ozu oferecido a Tanaka, e adaptado por Ryosuke Saito, o filme conta com as participações de Chishū Ryū, Shūji Sano, Hisako Yamane, Yōko Sugi, Mie Kitahara, Shōji Yasui, Ko Mishima e a própria Kinuyo Tanaka no papel de Yoneya. A longa-metragem marca ainda a estreia da jovem Shōji Yasui em cinema, nascida Masao Yomo, que adoptou o nome da sua personagem neste filme como nome artístico. 

Sobre este filme e sobre a realizadora, escreveu a crítica e programadora Maria João Madeira que “o título do filme de Kinuyo Tanaka (1909-1977), parece querer dizer que há uma lua a cintilar algures no alto. The Moon has Risen. Consta que andou apagado durante umas décadas, afastado do cânone do cinema clássico japonês que, rendido a Tanaka actriz, tardou a acolher Tanaka realizadora. Eu não acredito em estigmas mas que os há, há?” 

“O caso mais nitidamente aproximável,” continuou, “é o de Ida Lupino (1918-1995), à luz do cânone americano: um longo e reconhecido percurso de actriz e actriz de grandes realizadores, uma curta e pouco vista obra como realizadora e realizadora de grandes filmes, sensivelmente pela mesma época em que, no Japão dos anos 1950/60, Tanaka dirigia os seus ao arrepio da norma masculina.” 

Toda a obra de Kinuyo Tanaka está agora disponível em Portugal graças aos esforços da The Stone and the Plot e é portanto uma oportunidade única para a conhecer. Para a semana, no dia 28 de Novembro, o cineclube exibirá o seu terceiro filme, Para Sempre Mulher

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes e utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até amanhã!

domingo, 19 de novembro de 2023

Koibumi (1953) de Kinuyo Tanaka



por António Cruz Mendes

Carta de amor é um melodrama construído sobre um tema político apresentado de uma forma quase subliminar. O contexto da narrativa é o do pós-guerra. Depois dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, o Japão rendeu-se e foram colocados sob a dominação dos EUA. A continuidade do Imperador apenas foi tolerada por ele ter renunciado a todos os seus poderes e, à humilhação da derrota militar e de um poder político tutelado por estrangeiros, somou-se o impacto cultural da presença americana que ameaçava as antigas tradições culturais que conferiam uma identidade própria ao orgulhoso Império do Sol Nascente. 

Recusando as transformações sociais que na sequência disso ocorreram, Yukio Mishima, o renomado autor de O Templo Dourado, suicidou-se em 1970, praticando o ritual do seppuku (mais conhecido entre nós por haraquiri), depois do falhanço de uma quixotesca tentativa de golpe de militar que teria como objectivo restaurar o antigo poder imperial. No filme de Kinuyo Tanaka, o velho Japão rebaixa-se na figura das prostitutas que se vendem aos soldados americanos e Reikichi, um soldado desmobilizado, ganha a vida escrevendo-lhe as “cartas de amor” que elas lhes dirigem para conseguirem sacar-lhes mais algum dinheiro. O seu irmão montou uma banca onde vende a American Home e outras revistas americanas em segunda mão. E é neste contexto que Reikichi, que vive só e amargurado por ter visto o seu grande amor preterido por um casamento de conveniência e depois de cinco anos de separação, finalmente reencontra a sua amada para ficar a saber que, também ela, depois de enviuvar, passou a viver dos donativos de um soldado americano de quem teve um filho. Um soldado que, diz-lhe ele, podia ter sido aquele que matou o seu marido. 

O filme resolve-se, portanto, neste conflito íntimo vivido por Reikichi, entre o seu amor por Michiko e a repugnância que lhe suscita a sua “traição”. Em paralelo, a partir de um longo flash back, conhecemos a história de Michiko, do seu amor, sempre adiado, por Rekichi e das razões que explicam as suas difíceis opções. 
 
Carta de amor é, como já se disse, o primeiro filme realizado por Kinuyo Tanaka. Porém ele denota já uma grande maturidade. As sequências do reencontro e a da separação de Reikichi e Michiko são belíssimas, e a montagem alternada da sequência final oferece-nos uma emotiva, mas sóbria e elegante conclusão. Aliás, a relação de Kinuyo Tanaka com o cinema é muito anterior à sua experiência como realizadora. Antes disso, já ela se tinha destacado como actriz e, como produtora, tinha sido responsável por vários filmes dos grandes mestres do cinema japonês, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu. Depois de Carta de Amor, realizou ainda mais cinco filmes que, agora, por feliz iniciativa da distribuidora The Stone and the Plot, foram finalmente exibidos em Portugal. De Kinuyo Tanaka, o nosso cineclube exibirá, ainda, nas duas próximas sessões, A lua ascendeu e Para sempre mulher.



segunda-feira, 13 de novembro de 2023

320ª sessão: dia 14 de Novembro (Terça-Feira), às 21h30


Primeiro filme de Kinuyo Tanaka para ver no cineclube 

No mês de Novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga vai exibir quatro filmes, iniciando o mês com um lançamento e uma carta branca ao escritor covilhanense Manuel da Silva Ramos e promovendo um pequeno ciclo de três filmes dedicado à cineasta japonesa Kinuyo Tanaka. 

A partir de amanhã, o foco será sobre Kinuyo Tanaka, actriz e realizadora japonesa nascida em 1909 e falecida em 1977. Como intérprete, foi mesmo uma das mais famosas actrizes do Japão e apareceu em mais de 200 filmes, trabalhando com cineastas tão importantes como Yasujiro Ozu, Hiroshi Shimizu, Kenji Mizoguchi, Mikio Naruse e Akira Kurosawa. 

Foi premiada no Japão e em Berlim, ganhando o Urso de Ouro para Melhor Actriz em 1975 pela sua interpretação em Sandakan hachibanshokan bohkyo de Kei Kumai. 

Entre 1953 e 1962, Tanaka realizou seis longas-metragens, tornando-se a segunda mulher japonesa a trabalhar como realizadora depois de Tazuzo Sakane, que fez quinze filmes durante os anos trinta e quarenta, conhecendo-se apenas o paradeiro de um deles, Kaitaku no Hanayome, um filme de propaganda produzido pelos estúdios Manchukuo em 1943. 

Distribuída recentemente pela The Stone and the Plot, toda a obra de Kinuyo Tanaka está agora disponível em Portugal. Dos seis filmes da realizadora, o cineclube exibirá, para já, apenas os primeiros três: Carta de Amor amanhã à noite, A Lua Ascendeu no dia 21 e Para Sempre Mulher no dia 28. 

Carta de Amor é a adaptação de um romance de Fumio Niwa, que escreveu o guião com Keisuke Kinoshita, sobre um homem que cinco anos depois do final da Segunda Guerra consegue um emprego a traduzir cartas de amor de prostitutas japonesas dirigidas a soldados americanos. 

Num texto para o projecto Sala de Projecção, precisamente sobre a obra de Tanaka, Maria João Madeira descreveu Carta de Amor como um filme “em que se reflectem as feridas do pós-guerra numa sociedade que prosseguia brutal no olhar que lançava às mulheres. A essa brutalidade responde um grande plano da personagem interpretada por Yoshiko Kuga, já perto do fim, que tem de ser visto para que se sinta o acossamento, a dor, a incredulidade, a recusa de mais palavras, a convulsão e a contenção.” 

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes e utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até amanhã!

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Le fantôme de la liberté (1974) de Luis Buñuel



por Luis Buñuel

Este novo título, já presente numa frase de A Via Láctea (“a vossa liberdade não passa de um fantasma”), pretendia ser uma discreta homenagem a Karl Marx, àquele “espectro que percorre a Europa e se chama o comunismo”, no início do Manifesto. A liberdade, que na primeira cena do filme é uma liberdade política e social (esta cena é baseada em acontecimento reais, o povo espanhol gritava de facto “Viva os grilhões” a favor do regresso dos Bourbons, por ódio às ideias liberais introduzidas por Napoleão), essa liberdade adquire rapidamente um novo sentido, a liberdade do artista e do criador, tão ilusória quanto a anterior. 

O filme, muito ambicioso, difícil de escrever e de realizar, foi algo frustrante. Inevitavelmente, alguns episódios são melhores que outros. Mas não deixa de ser um dos filmes que fiz que prefiro. A sua dinâmica é interessante, gosto da cena de amor no quarto da estalagem entre a tia e o sobrinho, também gosto da busca da rapariga que se perdeu (uma ideia que tinha há muito tempo), a visita dos dois comandantes da polícia ao cemitério, uma longínqua recordação do Sacramental de San Martín, e o final no jardim zoológico, aquele olhar insistente da avestruz que parece ter pestanas falsas. 

Hoje, quando penso nisto, creio que A Via Láctea, O Charme Discreto da Burguesia e O Fantasma da Liberdade, todos nascidos de um argumento original, forma uma espécie de trilogia, ou melhor, de tríptico, como na Idade Média. Encontram-se nos três filmes os mesmos temas, por vezes até as mesmas frases. Falam da procura da verdade, da qual há que fugir assim que pensamos tê-la encontrado, do implacável ritual social. Falam da indispensável busca, do acaso, da moral pessoal, do mistério que há que respeitar. 
 
A título de pormenor, indico que os quatro espanhóis que fuzilam os franceses no princípio do filme são José Luis Barros (o mais alto), Serge Silberman (com uma faixa sobre a testa), José Bergamín em pessoa, de padre, e eu próprio, escondido debaixo da barba e da sotaina de um frade.

in «O meu último suspiro», Edições Fenda, Lisboa, 2006.



terça-feira, 7 de novembro de 2023

319ª sessão: dia 07 de Novembro (Terça-Feira), às 21h30


Escritor Manuel da Silva Ramos em Braga com novo livro 

No mês de Novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga vai exibir quatro filmes, iniciando o mês com um lançamento e uma carta branca ao escritor covilhanense Manuel da Silva Ramos e promovendo um pequeno ciclo de três filmes dedicado à cineasta japonesa Kinuyo Tanaka. 

Assim, no dia 7 de Novembro, terça-feira, apresentar-se-á o livro A Mulher do periquito e outras estórias, de Manuel da Silva Ramos, na livraria 100ª Página às 18h30, com as presenças do autor e de António Ferreira, promotor dos programas “Livros com Rum” e “Leitura em Dia”, difundidos semanalmente pela RUM - Rádio Universitária do Minho. 

Ainda no dia 7 às 21h30, no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Silva Ramos apresentará o filme escolhido por si para esta ocasião, O Fantasma da Liberdade de Luis Buñuel, conversando depois com o público sobre o filme e o mítico realizador espanhol. Esta obra é a penúltima longa-metragem de Buñuel, contando com interpretações de Michel Piccoli e Monica Vitti. 

“O acaso controla tudo,” escreveu Buñuel na sua auto-biografia, O Meu Último Suspiro, publicada entre nós pela editora Fenda em 2006. “A necessidade, que está longe de ter a mesma pureza, só aparece mais tarde. Se tenho uma fraqueza por algum dos meus filmes, é por O Fantasma da Liberdade, porque tenta precisamente trabalhar este tema.” 

“Fantasiei muitas vezes com o meu argumento ideal,” continua o realizador, “que começaria num momento perfeitamente banal—um pedinte a atravessar a rua, por exemplo. Ele vê uma mão a surgir da porta aberta de um carro luxuoso e a atirar um charuto Havana meio fumado para a rua. O pedinte pára de repente para apanhar o charuto, há outro carro que o atinge, e ele morre imediatamente.” 

“A partir deste acidente único,” propõe por fim Buñuel, “surge uma série infindável de perguntas: O que é que o pedinte estava a fazer na rua àquela hora? Porque é que o homem a fumar o charuto o deitou fora nesse preciso momento? As respostas a perguntas como estas provocam outras perguntas, assim como tantas vezes nos encontramos perante encruzilhadas complicadas que levam a outras encruzilhadas, até labirintos cada vez mais fantásticos.” 

As sessões do Lucky Star - Cineclube de Braga ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes e utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até logo!

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Em Novembro, no Lucky Star:




A Ilha dos Amores (1982) de Paulo Rocha



por Joaquim Simões

Numa entrevista de 1998, Paulo Rocha diz que A Ilha dos Amores “é uma espécie de longo gráfico das várias tentações e zangas que eu tive com temas chineses, macaístas, japoneses de várias cores e feitios, lisboetas e europeus, (...) a ideia de fazer um poema com todas as línguas, o conceito de colagem onde estivessem todas as civilizações.” 

A estrutura desta portentosa obra fílmica possui na base uma estrutura organizada em cantos que é facilmente associada a Os Lusíadas, embora, na verdade, esta divisão seja uma herança do autor de uma das mais antigas obras da literatura oriental, as Nove Canções de Chu Yuan (340 a. C. – 278 a. C.). Este poeta exerceu o cargo de primeiro-ministro numa região e num contexto administrativo que viria, com outros estados, a formar a futura China. Desterrado para o Sul, Chu Yuan recolheu entre as populações primitivas que ali viviam um conjunto de canções xamanísticas que reescreveu de uma forma erudita. Quando Paulo Rocha descobriu esta figura maior da identidade chinesa, assim como a articulação das matérias subjacentes ao poema referido, encontrou nas referidas canções a solução para dar corpo e alma e, como ele disse, a “forma e o fundo” a um projeto que inicialmente seguia um rumo muito mais próximo da narrativa clássica. 

Não obstante o realizador privilegiar a construção de um filme mosaico, há um fio condutor que não afastou o lado mais prosaico, embora reinterpretado, da vida e do percurso existencial do homem, o escritor e oficial da marinha de guerra Wenceslau de Moraes (interpretado no filme por Luís Miguel Cintra). Português, nascido em Lisboa a 30 de Maio de 1854 e falecido em circunstâncias misteriosas no Japão (suicídio, assassínio, acidente?) a 1 de Julho de 1929. No seguimento de uma série de contrariedades pessoais e desiludido com a política nacional, sobretudo a crise gerada pelo controverso episódio do Mapa Cor-de-Rosa, abandonou Portugal para rumar a Macau nos finais do Século XIX. 
 
Em Macau viveu com uma mulher chinesa, Atchan e estabeleceu amizade com o poeta Camilo Pessanha (no filme interpretado pelo próprio Paulo Rocha). Foi, no entanto, no Japão, que o escritor encontrou a “arte de viver” que o encantou e o fez deixar novamente o passado em busca de uma nova vida. No Japão Wenceslau conheceu e viu morrer duas mulheres, O-Yoné e a sobrinha desta, Ko-Haru. 

A morte é uma presença constante e fantasmagórica neste filme. Como, a dada altura é dito, “O encontro é o início da separação”. Também a vida é o início da morte. Nos últimos anos Wenceslau viveu mergulhado numa profunda e amarga solidão. O próprio escritor diz, numa carta enviada ao amigo Dias Branco: “Vivo de lembranças do passado. Mas o passado parece-me já um sonho, uma coisa que nunca teve realidade. Do futuro não falo, o futuro é para mim a morte e mais nada.”