sábado, 29 de março de 2025

390ª sessão: dia 1 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


A Flor do Buriti esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para o mês de abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta um ciclo de cinema intitulado “(So-bre)vivências num Mundo Inóspito. Olhares sobre exclusões e resistências” que conta com a parceria do Fórum Cidadania pela Erradicação da Pobreza – Braga e o projeto Migra Media Acts do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.
 
O ciclo é composto por filmes que representam criticamente a vulnerabilidade humana e as condições político-económicas que a potenciam, dando a conhecer problemáticas e formas de resistência.

Esta terça-feira, 1 de abril, o ciclo arranca com o filme A Flor do Buriti (2023), de Renée Nader Messora e João Salaviza. A Flor do Buriti explora três momentos da história do povo Krahô, passando pelas ditaduras brasileiras, durante as quais o povo Krakô foi perseguido, massacrado e obrigado a juntar-se a unidades militares, focando-se, ainda, nos desafios contemporâneos. O filme expõe a luta contínua do povo Krahô que, perante velhas e novas ameaças, encontra na sua relação com a natureza e nas tradições antigas modos de resistir.

Esta obra cinematográfica foi filmada em 16mm e o argumento foi escrito com o povo Krahô, envolvendo as comunidades das aldeias de Pedra Branca, Coprêr, Morro Grande e Manoel Alves Pequeno, para que o filme se centrasse nas suas memórias coletivas e luta política.

Desde 2014, esta dupla de realizadores tem vindo a realizar filmes participativos, tendo colaborado anteriormente com o povo Krahô para o filme Cantoria na Aldeia dos Mortos (2019), celebrado em Cannes com o Prémio do Júri. O cineasta João Salaviza ganhou, ainda, em 2009, a Palma de Ouro com Arena na categoria de curta-metragem, tendo sido o primeiro português a receber este prémio.

A Flor do Buriti também foi exibido em vários festivais internacionais, tendo estreado mundialmente na seleção oficial do Festival de Cannes – Un Certain Regard e galardoado com o Prémio de Melhor Elenco. Entre os vários destaques, honras e prémios, o filme também recebeu o Prémio de Melhor Longa-Metragem na 64º edição do Festival dei Popoli em Florença, sendo este o festival de cinema documental mais antigo da Europa.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.
 
Até terça-feira!




terça-feira, 25 de março de 2025

Disponível para Amar (2000) de Wong Kar-Wai




por António Cruz Mendes

A solidão, o desejo do amor e a impossibilidade da sua realização, são temas recorrentes na filmografia de Wong Kar-wai. Ainda na nossa última Folha de Sala, a Catarina Bernardo justamente o assinalou a propósito de Felizes Juntos. Podemos igualmente encontrá-los em Chunking Express ou em Anjos Caídos, também exibidos neste ciclo dedicado ao realizador de Hong Kong.
 
Porém, em Disponível para Amar, realizado três anos depois do filme da semana passada, o tom é mais melodramático e o ritmo do filme é radicalmente diferente. À dinâmica trepidante dos filmes anteriores, sucede uma cadência dolente, pontuada por imagens em slow motion e sublinhada pela banda sonora, pela valsa triste de Shigeru Umebayashi e pelas canções de Nat King Cole. São imagens perpassadas por uma condoída melancolia que denotam a fraqueza dos protagonistas perante as circunstâncias e os acasos da vida.
 
Chow Mo-wan, jornalista, e Su Li-zhen, secretária, ao contrário de outras personagens de Wong Kar-wai, não são figuras transgressoras. A sua vida é rotineira e nem a revelação da traição dos seus cônjuges suscita neles uma atitude de revolta. O seu mal-estar permanece sufocado, não se manifesta publicamente. Contudo, a sua situação aproxima-os e, lentamente, a partilha do seu desgosto vai-se transformando em compreensão e cumplicidade. Um caminho que os dois vão percorrendo, assinalado por pequenos gestos e olhares. À medida que a sua afeição se sedimenta, a cor vermelha passa a estar cada vez mais presente, seja nos corredores do hotel onde se encontram seja nos vestidos de Su. Contudo, nenhum deles tem a coragem de assumir a sua paixão.
 
Nunca vimos o rosto do Sr. Chang ou da Sra. Chow, que têm uma passagem muitíssimo fugaz nas primeiras sequências do filme. Sabemos que estão ausentes, mas a sua presença fantasmática será determinante. O patrão de Su mantém uma relação extraconjugal e o amigo de Chow frequenta prostíbulos, mas “nós não seremos como eles”, repetem-nos mais do que uma vez. Em diferentes momentos, close-ups dos seus dedos mostram-nos as suas alianças. O seu respeito pelas convenções, o receio do julgamento dos seus vizinhos, que tratam Su pelo nome do marido, impede-os de assumir o seu amor.
 
Em Disponível para Amar e até à sequência final, não vemos a luz do dia, nem planos abertos. Chow e Su estão sempre presentes, muitas vezes sozinhos, quase sempre alheados dos que os rodeiam. Os espaços claustrofóbicos do prédio onde habitam, percorridos por estreitas escadas e corredores, onde se acotovelam os seus hospedeiros, são uma expressão visual do seu confuso mundo interior, uma solidão povoada pelo olhar insistente dos outros. A câmara parece por vezes espreitar por estreitas aberturas os espaços onde cada um deles se refugia. Parece querer convidar-nos também a nós, espectadores, a sondar furtivamente a sua intimidade. Só à noite, em locais públicos, mas de facto desertos, conseguem reunir-se a sós. Ensaiam, então, confrontações e despedidas… Em vão. O senhor Chang terá regressado ou não a casa, mas a separação é inevitável. E nessa noite de chuva torrencial, a primeira e a última em que os vemos abraçados, Chow anuncia a sua partida para Singapura, onde prosseguirá o seu ofício de jornalista. 
 
As sequências finais decorrem no Cambodja, onde Chow foi cobrir uma visita do General De Gaulle, documentada por imagens de arquivo. Antes disso, em Singapura, ele evocou um antigo costume: quando alguém tem um segredo que não pode revelar dirige-se a uma floresta, abre um buraco numa árvore e guarda-o aí para sempre. É o que ele fará no templo de Angkor Wat, sob o olhar de um jovem monge budista. 
 
 
 

sábado, 22 de março de 2025

389ª sessão: dia 25 de Março (Terça-Feira), às 21h30


Disponível para amar, de Wong Kar-Wai, esta terça
 
Para o mês de março foi programado um conjunto de filmes do realizador chinês Wong Kar-Wai, para constituir uma pequena retrospectiva deste emblemático realizador. Como habitualmente as sessões ocorrem às terças-feiras no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

Esta terça-feira, 25 de março, o ciclo encerra com o filme Disponível para Amar de 2000, também conhecido pelo seu título em inglês In the Mood for Love e considerado uma obra incontornável de Wong Kar-Wai. 

Disponível para Amar é uma poesia visual que explora as complexidades do coração humano. No frenesi das ruas de Hong Kong, dois estranhos encontram-se, unidos por um elo invisível de desejo. Entre encontros fugazes e desencontros dolorosos, as personagens embarcam numa jornada emocionalmente intensa de amor proibido, onde as linhas entre realidade e fantasia se misturam.

Conhecido por improvisar e alterar as narrativas durante a produção fílmica, Wong Kar-Wai também reformulou a história de Disponível para Amar à medida que as filmagens avançavam. Foi inicialmente pensado como sequela do filme Dias Selvagens (1990), com o título “Verão em Beijing”.
 
A cinematografia foi iniciada por Christopher Doyle e concluída por Lee Ping-Bing, ambos contribuindo para a estética pictórica do filme. Apesar da narrativa assentar na Hong Kong dos anos 60, muitas cenas foram filmadas em Bangkok e Tailândia para criar a atmosfera certa.

A actriz Maggie Cheung usa 46 cheongsams (qipaos) diferentes ao longo do filme, concebidos para refletir mudanças subtis nas emoções da sua personagem. O coprotagonista Tony Leung ganhou o prémio de melhor ator em Cannes.

Wong Kar-Wai terá continuado a editar o filme depois do festival, refinando-o para o lançamento nos cinemas e foi, ainda, filmado um final alternativo – um romance mais explícito entre os dois personagens principais – descartado, depois, para manter o tom contido e melancólico do filme. Algumas cenas cortadas sugeriam que a personagem interpretada por Maggie Cheung estava grávida. O filme 2046, de 2004, pode ser visto como uma possível continuação do filme Disponível para Amar, e que completa, assim, juntamente com o filme Dias Selvagens, a "Trilogia do Amor" de Wong Kar-Wai.

Wong Kar-Wai tencionava usar apenas músicas de Nat King Cole, decidindo utilizar, posteriormente, o tema “Yumeji”, de Shigeru Umebayashi, para criar um ambiente idílico e nostálgico.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!


quarta-feira, 19 de março de 2025

Felizes Juntos (1997) de Wong Kar-Wai



por Catarina Bernardo
 
Um filme sobre solidão, desejo e identidade, que reflete a impossibilidade de certos amores e a busca por um recomeço. Felizes Juntos (1997) transporta-nos para as ruas de Buenos Aires onde conhecemos Lai Yiu-Fai (interpretado por Tony Leung Chiu-Wai, um nome bastante conhecido nas obras de Wong Kar-Wai) e Ho Po-Wing (Leslei Cheung), um casal que vivia em Hong-Kong, mas que decide viajar para a Argentina em busca de um recomeço. Cedo percebemos que a relação na verdade é marcada por um ciclo tóxico de paixão, separações e reconciliações. Presos naquele ambiente estrangeiro, Lai trabalha em diversos empregos numa procura de estabilidade e de uma vida melhor. Já Ho, o mais impulsivo da relação, vive a vida de forma irresponsável, procurando Lai quando este se encontra vulnerável, tornando a relação desgastante.
 
Através de uma atmosfera visual vibrante e ao mesmo tempo melancólica, Christopher Doyle cria uma estética visual bastante distinta. A oscilação entre o preto e o branco e as cores vibrantes conseguem criar um contraste entre momentos de infelicidade ou de felicidade intensa. A saturação do amarelo e do verde transmitem uma sensação de calor e desejo, mas ao mesmo tempo de desinteresse e solidão. Os movimentos de câmara bruscos e instáveis ajudam a reforçar a agitação emocional dos personagens.
 
Sendo o filme maioritariamente filmado na Argentina, transmite uma sensação de deslocamento nos personagens, que são imigrantes de Hong Kong. As condições em que vivem, o espaço claustrofóbico e sujo do pequeno apartamento que partilham simboliza a decadência da relação, enquanto as paisagens da Argentina transmitem a sensação de liberdade e mudança.
 
Com o filme Felizes Juntos, Wong Kar-Wai recebeu o prémio de melhor realizador no Festival de Cannes e tornando-se um dos realizadores mais inovadores do cinema contemporâneo. Felizes Juntos foi inovador no cinema asiático por retratar um relacionamento entre dois homens de uma forma natural e emocionalmente complexa. O filme teve um grande impacto na visibilidade da Comunidade LGBTQ+ em Hong Kong e noutros países asiáticos, onde a homossexualidade enfrentava uma forte repressão.
 
Quase trinta anos depois, este filme continua a ser um símbolo importante para a comunidade, especialmente em Hong Kong e Taiwan, onde teve grande influência. 
 
 
 

sábado, 15 de março de 2025

388ª sessão: dia 18 de Março (Terça-Feira), às 21h30

Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai, nesta terça-feira no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
Encerrado o ciclo de fevereiro dedicado ao cinema japonês, o Lucky Star – Cineclube de Braga preparou um novo ciclo focado no cinema asiático. Para o mês de março de 2025 foi programado um conjunto de filmes do realizador chinês Wong Kar-Wai. Assim, escolheram-se quatro filmes para constituir uma pequena retrospectiva deste emblemático realizador. Como habitualmente as sessões ocorrerão às terças-feiras no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

Esta terça-feira, 18 de Março, o ciclo prossegue com o filme Felizes Juntos de 1997. Obra emblemática do realizador por quebrar tabus, devido à representação de uma relação homossexual de maneira complexa e sensível. A narrativa do filme é baseada no romance “The Buenos Aires Affair” do escritor argentino Manuel Puig, conhecido por explorar temas relacionados à sexualidade e marginalização.
 
A inconfundível cinematografia de Christopher Doyle com composições assimétricas e cores fortes, traz intensidade e uma profundidade melancólica à estória. O director de fotografia recorreu a várias câmaras portáteis para transmitir a sensação de instabilidade do relacionamento dos protagonistas.

O título original em chinês "Chun Gwong Cha Sit", que pode ser traduzido como "A luz esplêndida continua fluindo", alude à poesia e à sensualidade, enquanto o título em inglês, "Happy Together", é uma referência à canção homónima da banda The Turtles, readaptada por Danny Chung para fazer parte da banda sonora do filme. Felizes Juntos valeu a Wong Kar-Wai o prémio de “melhor diretor” no Festival de Cannes, em 1997. O filme é, ainda, considerado uma obra de referência do “Cinema Queer”.
 
Felizes Juntos, tido como uma obra-prima de Wong Kar-Wai, mergulha nas ruas agitadas de Buenos Aires, onde dois amantes enfrentam as marés que oscilam entre amor e desconexão. Num turbilhão de emoções, eles lutam para encontrar sentido na sua relação complexa, navegando pelas profundezas da paixão e da solidão. Entre encontros ardentes e despedidas dolorosas, o filme leva-nos numa jornada emocionalmente intensa, onde a esperança e a melancolia se entrelaçam num abraço eterno.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!

quarta-feira, 12 de março de 2025

Anjos Caídos (1995) de Wong Kar-Wai


por Estela Cosme

O néon está em todo lado na Hong Kong de Anjos Caídos. As cores vivas da atmosfera poluem o ecrã de forma incessante. São muito poucos os sítios em que o verde, o amarelo ou o vermelho nos fogem do olhar, de tal forma que nem notamos que todas as cenas ocorrem durante a noite, como se tudo acontecesse numa madrugada contínua. Mas as cores só se destacam graças ao contraste com o preto das sombras, pois é nos lugares sombrios que as personagens de Wong Kar-Wai se cruzam.

A dualidade das cores só intensifica os dilemas das personagens que encontramos: o assassino que pensa em reformar-se, a sua parceira apaixonada, o criminoso mudo que vende gelados, a sua amante tagarela, a prostituta que se atrai pelo assassino. A câmara mostra-nos close-ups de todas estas personagens em busca de conexão humana nesta cidade noturna, à procura de uma ligação que finalmente enriqueça as suas vidas. Todas elas procuram alguém que fale a sua linguagem ("Speak my language", repete a canção a tocar na jukebox).

Há um sentimento de urgência em todas estas personagens que deambulam pela noite, à procura de uma mudança que ainda não lhes é evidente. O filme foi lançado em 1995 e Hong Kong estaria a preparar-se para a sua transferência territorial para a China em 1997. Isto evidencia personagens marcadas por um presente incerto com ânsias de uma época na qual só o contacto humano pode trazer algum alívio.

 Estamos em plenos anos 90 do último século, onde os objetos materiais são uma tentativa para trazer algum conforto no dia a dia, com tecnologia que agora nos evoca uma grande nostalgia: uma jukebox de CDS, telefones com corda fixados à parede, uma carrinha de vender gelados, uma mini TV, uma câmara de filmar, até secadores de cabelo para as permanentes de outros tempos. Mas tudo são distrações para o que as personagens procuram. Até mesmo para o criminoso que apenas pode relembrar o seu pai, através do vidro de uma televisão, o sabor dos seus cozinhados perdidos à memória.

Este filme foi criado a partir de ideias já pensadas por Kar-Wai para Chungking Express (1994). Aliás, o realizador defendeu que ambos os filmes deveriam ser vistos como um só. No entanto, a realidade de ambos os filmes é bem diferente. Enquanto em Chungking Express a personagem com o número 225 é um polícia, em Anjos Caídos é um criminoso (as personagens são ambas interpretadas pelo mesmo ator, Takeshi Kaneshiro, e são marcadas por infortúnios relacionados com ananás). No filme de 1994, as relações são marcadas pela luz do dia, mas acabam durante a noite. Em Anjos Caídos, elas fazem-se e desfazem-se sob as lâmpadas noturnas. A sensação de otimismo é bem mais forte em "Chungking" e em "Anjos" parece bem mais fatalista, embora em ambos não haja garantias que as relações funcionem. Mesmo assim, as procuras de ligações interpessoais dominam as preocupações das personagens. Infelizmente, elas acabam por ser todas temporárias.

A criação de laços no meio urbano é uma preocupação da nossa contemporaneidade e Wong Kar-Wai apresenta-o de forma visual e emocionalmente potente, sem véus que tapem as frustrações e solidões que as acompanham. Mas também mostra que há momentos em que são possíveis e que podem existir, nem que seja momentaneamente. Na última cena, finalmente, vemos um tom azulado que anuncia o raiar do dia. O zumbido do néon desaparece e apercebemo-nos que nem todas as conexões são duradouras, mas todas elas são eletrizantes.

 

 Folha de Sala